Roberto Muylaert: Lágrimas olímpicas

Nelson Rodrigues agora diria que “O Engenhão vaia até salto com vara”

Por pierre

Ó mar salgado, quanto do teu sal
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso, ó mar!
Valeu a pena?
Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.

Logo no início do poema de Fernando Pessoa estão as lágrimas, tão presentes nos tempos de Olimpíada que se encerraram há três dias, abrindo para o Brasil a possibilidade de substituir emoções por ações positivas na esteira dos Jogos. Fica claro que o esporte é um dos caminhos rápidos para encaminhar os jovens a uma vida mais saudável, longe dos problemas gerados na sociedade por políticas governamentais que não contemplam o essencial. E o Rio pode ser o polo irradiador de um projeto permanente de incentivo à prática de esportes nas comunidades carentes. Basta ver o sucesso da organização dos jogos com um time pronto a continuar seu trabalho.

A partir de muita lágrima, como no poema, sociólogos e antropólogos começam a discutir por que somos assim, de onde vem essa capacidade de ir da intensa alegria ao desconsolo profundo. O complexo de vira-latas que Nelson Rodrigues definiu em 1950 como sendo o respeito exagerado pelo que vem de fora, em detrimento do que é feito aqui, reaparece.

Daí passarmos das vitórias celebradas como se um gigante tivesse sido derrubado, ao desalento total de uma derrota, onde lágrimas reinam absolutas. Como subproduto desse comportamento surgem as vaias fora de hora, a mostrar que também estamos em quadra, podendo atrapalhar o adversário sempre tão forte. Já foi dito que pela nossa posição geográfica e limitação de recursos financeiros e linguísticos, temos menos contato com o resto do mundo do que seria desejável.

Daí não respeitarmos o convencionado pelo Hemisfério Norte, onde em alguns esportes o silêncio deve ser absoluto, como no tênis, onde ruído fora de hora pode criar um ambiente exagerado de consternação. Nossa cultura futebolística diz que quando mais barulho melhor, até porque nosso esporte é o futebol, onde a zoeira faz parte do jogo. O próprio Nelson Rodrigues disse que “O Maracanã vaia até minuto de silêncio”. Atualizado para os dias de hoje, ele agora diria que “O Engenhão vaia até salto com vara”.

Roberto Muylaert é editor e jornalista

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