Por pierre

Não sei se é algum desvio de conduta, mas, na medida do possível, estou sempre lendo algo a respeito da Segunda Guerra Mundial. A internet tem tudo, claro, mas alguns livros a respeito ainda merecem a nossa atenção — principalmente quando se unem às novas tecnologias.

É o caso de ‘A cor da coragem’, diário de um garoto polonês de 10 anos que lutou bravamente contra a ocupação nazista do seu país, em 1939, já no início da Segunda Guerra. O Gueto de Varsóvia, diga-se, foi um dos episódios mais violentos do projeto genocida de Hitler. Julian Kulski era um pequeno escoteiro que ficou na Resistência até ser preso em 1944, quando foi capturado. Puxou cana um tempo, mas foi solto e voltou a atazanar os invasores. Era tinhoso. Quando a Guerra chega ao fim, Julian tem 16 anos e, para tratar-se do estresse profundo, começa a registrar suas memórias.

Resumidamente, é esta a história. Mas a conversa é bem articulada, clara, didática e sem grandes chatices ou pieguices — um perigo grande quando se trata de memórias de sobreviventes da guerra. O editor não caiu nessa armadilha e enriqueceu com detalhes históricos e muita informação boa.

Mais que isso, o livro é muito bem bolado. Não só pelo material iconográfico extenso, com mapas e fotos que são uma viagem à parte, mas também pelo uso inteligente de material interativo, com filmes e transmissões radiofônicas disponíveis na internet para o leitor. Vale conferir, no mínimo, como proposta de casamento entre a nossa querida mídia chamada livro e o seu inevitável (e não menos querido) futuro.

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Um leitor comenta, a respeito da coluna passada, que o regime cubano não é tão ruim quanto diz o Pedro Juan Gutiérrez em ‘Fabián e o caos’. E trata de me espinafrar, que sou de extrema-direita, etc. Longe disso, tanto que a segunda dica de hoje é ‘Fidel e a religião’, um clássico da década de 80 relançado agora, justamente quando o ditador cubano faz 90 anos. Baseado em 23 horas de entrevistas do Frei Betto com o líder da revolução, o livro fez sucesso retumbante aqui e em 32 países. Li na época do lançamento, reli agora há pouco. Haveria críticas, mas uma coisa é certa: se a conversa do Fidel fosse seguida ao pé da letra, Cuba estaria mais forte e feliz. O problema é que, entre o discurso e a prática, sempre rola algum desvio. De qualquer maneira (e para usar uma palavrinha da moda), o livro ainda é inspirador. A não ser que você seja um bruto, sem coração, de extrema-direita.

Nelson Vasconcelos é jornalista

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