Wadih Damous: Mais de mil palhaços no salão

Todos os deputados passam por um busto em homenagem a Rubens Paiva, vítima da ditadura. Muitos o ignoram

Por O Dia

Quando presidi a Comissão Estadual da Verdade do Rio de Janeiro, não poderia imaginar que tempos depois assistiria, como deputado, a uma das cenas mais tristes da história da recente democracia brasileira: a votação do processo de impedimento da presidente Dilma Rousseff.

Antes de ir para votação no plenário, todos os deputados passam por um busto em homenagem a Rubens Paiva, vítima da ditadura civil-militar que condenou o país a viver décadas de suspensão do Estado de Direito, de corrupção e de violência institucionalizada. Quase despercebido, deveria servir de norte e recado para que não se esqueça, para que nunca mais aconteça.

Muitos daqueles deputados não conhecem a história de Rubens Paiva, nem sequer sabem que naquele corredor existe a homenagem. Um deles chegou, inclusive, a dedicar o voto ao coronel Brilhante Ustra, primeiro militar reconhecido pela Justiça como torturador e comandante de uma delegacia de polícia acusada de ser palco de mais de 40 assassinatos e de, pelo menos, 500 casos de torturas.

A história não se repete, a não ser como farsa, disse Marx. O golpe perpetrado contra a primeira mulher eleita presidente do Brasil foi arquitetado por forças políticas indigentes ética e moralmente que serviram aos interesses geopolíticos norte-americanos na América Latina, com apoio do ‘partido político’ Rede Globo e Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Nisso, há semelhanças entre um e outro processo histórico. Se o julgamento na Câmara pode ser considerado um trauma porque possibilitou a milhões de brasileiros perceberem o nível da representação política no Brasil, o que ocorre agora no Senado tem demonstrado o que temos denunciado desde o início: o impeachment é um golpe, uma farsa que não resiste a racionais argumentos.

O escritor Luis Fernando Verissimo foi preciso ao comparar a situação do país à ópera ‘Pagliacci’, uma tragicomédia, burlesca e triste ao mesmo tempo. Feliz comparação. Triste mesmo é a realidade.

Wadih Damous é deputado federal pelo PT

Últimas de _legado_Opinião