Roberto Muylaert: Um caso de delírio

O dia fica monótono se não houver uma movimentação da Polícia Federal na madrugada

Por O Dia

O Brasil consegue surpreender quase sempre a quem acompanha as notícias. Nas segundas-feiras, o dia fica monótono se não houver uma movimentação da Polícia Federal na madrugada, à cata de novos malfeitos e malfeitores.

Na última segunda, entre outras notícias, surgiu o nome Exergia, firma que está sendo investigada por ter sido subcontratada da Odebrecht em obras de Angola, com financiamento do BNDES lá naquelas paragens. Trata-se de uma empresa de um sobrinho da primeira mulher de Lula, cujo parentesco distante era apropriado para que tais operações passassem despercebidas, até chegar à fase de investigação, quando se está descobrindo que a empresa nem existia, não tinha nenhum patrimônio para atender àquela obra em Angola.

De outro lado, o ex-ministro de Lula Antonio Palocci teria movimentado em propinas até R$128 milhões,segundo a acusação, pela necessidade de vitória na eleição a qualquer custo.

Tudo isso é conhecido, e a sensação de impunidade fez com que muitos desses desatinos fossem cometidos com a parceria da maior empreiteira do Brasil, a Odebrecht.

Por tudo isso é melancólico imaginar as reuniões do dono da Odebrecht com 50 pessoas de sua equipe, num hotel de Brasília, para organizar a sequência de delações premiadas que começarão a vir a público, e que deverão chegar a uma centena, em busca de garantir a seu filho Marcelo uma redução na pena de prisão.

Emílio Odebrecht foi o grande impulsionador da empresa, recebida de seu pai, o fundador Norberto Odebrecht. A partir da arrojada atuação de Emílio, a Odebrecht tomou impulso, ao criar modelo de negócios agressivo e eficiente, com divisão de responsabilidades entre os líderes de cada obra. A empreiteira ganhou respeito internacional ultrapassando fronteiras e realizando obras em países de engenharia muito adiantada, como os Estados Unidos.

Atuando no “estado da arte”, no limite da tecnologia de ponta, executou obras complexas no Brasil, como vetor direto da política de desenvolvimento que um país continental justifica e necessita. E trouxe divisas, muitas divisas.

O que aconteceu com o partido no governo, aliado à empreiteira, parece ser caso de delírio, ou miragem, onde valores envolvidos pareciam não ter limites, para sempre.

Roberto Muylaert é editor e jornalista

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