Por bferreira
Rio - O antigo terreno descampado que corta as favelas João Goulart e Vila Turismo, em Manguinhos, vai se transformar daqui a alguns meses na maior horta pública da América Latina. Mas os benefícios da plantação comunitária esbarram num sério problema: a qualidade do solo, que já abrigou um lixão e até ‘micro-ondas’ do tráfico — local de queima de corpos. A Secretaria Municipal de Meio Ambiente garante que a terra usada no cultivo vem de fora e passa por um processo especial.
Alessandro de Araújo, 35 anos, é um dos empregados que cultiva alface nos caixonetes da horta comunitáriaPaulo Araújo / Agência O Dia

Mas o cenário que se vê em Manguinhos mostra que o lixo já invadiu alguns dos quase 200 canteiros construídos para o plantio. Além de restos de comida, há material de higiene, carcaça de animais, moscas e ratos. E mesmo com a terra preparada pela Comlurb é difícil não falar em contaminação. “Não faríamos a horta se não houvesse segurança do que vai ser colhido. Os canteiros são feitos isolando o solo do terreno. A terra usada vem de outra parte da cidade. Mas a população tem que entender que não pode jogar lixo”, afirmou o subsecretário municipal de Meio Ambiente, Altamirando Moraes.

Moradora de Vila Turismo, a atendente Gabriela Farias, 24, sofre com a quantidade de insetos que invadem sua casa. “Minha filha de dois meses fica cheia de mordidas. Fora o mau cheiro. Às vezes, há tanto lixo que a caçamba chega a virar e cair”, afirmou ela, que se mostra receosa quanto ao plantio de verduras no local. “Toda hora tem um cachorro e, já vi até cavalo, no canteiro”.
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Atualmente, segundo o subsecretário de Meio Ambiente, há 25 hortas comunitárias na cidade. Na de Manguinhos estão sendo plantadas hortaliças e verduras orgânicas. Ainda não há data de inauguração. A Comlurb informou que a remoção de lixo é diária na comunidade e que são usados caminhões e um compactador. Mas, diante da denúncia, serão feitas vistorias para ver a necessidade de colocar mais caçambas de coletas para atender a demanda da localidade.
Empregos para os moradores
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Problemas à parte, a horta coletiva de Manguinhos promete se tornar um pequeno polo de agronegócio. A proposta da prefeitura é que os moradores coordenem o empreendimento. No momento, 25 pessoas da comunidade trabalham no projeto. Cada uma, ganha R$ 360. “É meu primeiro emprego”, disse Alexsandro de Araújo, 31 anos.
Segundo o presidente da associação de moradores de Manguinhos, Erivaldo Lima, será feito um cadastramento para as famílias mais humildes da comunidade que receberão uma cota de produtos por mês. “Há pessoas em situação de miséria. A horta vai levar comida para a casa dessa gente”, afirmou Lira.
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“Acho que não tem restos de ossos”
Apesar da UPP em Manguinhos, o assunto ainda causa medo entre os moradores. Falar do tráfico é lembrar do tempo em que homens armados circulavam com fuzis pelas ruas e vielas das favelas. Uma das reclamações de quem mora no local é que a horta comunitário foi projetada na área onde bandidos julgavam e queimavam seus desafetos em pneus.
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“Acho que não tem restos de ossos, porque depois eles jogavam o que sobrava no rio, mas a lembrança é muito negativa”, comentou um morador. O rio em questão se chama rio Faria-Timbó e também gera preocupação, porque é muito poluído. “Quando chove, a água transborda e invade as ruas. Se não for limpo, vai molhar parte da horta. Precisamos pelo menos que ele seja dragado”, disse o presidente da associação de moradores de Manguinhos, Erivaldo Lira.
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