Professores e jovens debatem futuro da luta

Ainda não há consenso se o movimento acabará caso a reivindicação da redução do preço da passagem de ônibus seja atendida. Envolvidos ainda definem novos rumos

Por O Dia

Rio - Se sociólogos ainda não definiram com clareza a bandeira do movimento que toma ruas do país, indefinição igual há sobre os rumos dos protestos. O que será das marchas, caso a demanda que alavancou as mobilizações — a redução das tarifas de ônibus — seja atendida? Até os estudantes, grande maioria nos atos, transitam entre especulações sobre o futuro do fenômeno “vem pra rua”.

Consenso é que o fenômeno já fez história e está no alvo de interesses de partidos, de olho nas eleições de 2014. Para o professor de Sociologia da Universidade Federal Fluminense (UFF) Paulo Gajanigo, o movimento vai achar novas questões, se as prefeituras, do Rio e São Paulo, por exemplo cederem e reduzirem as passagens.

Paulo Gajanigo (esquerda)%2C em debate com estudantes%2C prevê que o sentimento de indignação vai crescerJoão Laet / Agência O Dia

Ele diz que o movimento não acaba e pode se fortalecer, por causa da sensação de vitória. “Essa energia de indignação não acaba de uma hora para outra”, explica.

O professor de Ciência Política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp) e da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) João Feres Junior pensa diferente: “Há grande risco de acabar. O fenômeno está muito baseado na indução do que ocorreu em São Paulo”, assegura.

Para Feres Junior, se a demanda for atendida, há possibilidade de desmobilização em São Paulo. “Em outros locais, vira tipo um movimento de ‘indignados’, que não deu certo, até agora, no país”.

O estudante de Jornalismo da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e membro do Fórum Contra o Aumento da Passagem no Rio, Kenzo Soares Seto, 22, garante que o movimento não vai se esgotar.

Segundo ele, várias capitais anunciaram que iriam reduzir as passagens, e as prefeituras do Rio e de São Paulo querem negociar.

Para ele, todo movimento precisa ter vitórias, por mais difuso que pareça: “O nosso não se esgota na redução das tarifas, mas é fundamental que conquiste isso”.

Nova geração usa internet como arma e atua em diversas frentes

“O movimento revela que há uma nova geração política no país”, a frase é do universitário Kenzo Soares Seto, 22 anos, um dos representantes do Fórum Contra o Aumento da Passagem no Rio de Janeiro.

Ele mesmo pertence a esse grupo, que tem uma poderosa ferramenta de articulação — a internet — e que não tem registro na memória de algo que parece normal para quem já passou dos 30 anos: ver o PT como oposição ao governo.

Jovens seguravam cartazes com dizeres diversos durante manifestação segunda Ernesto Carriço / Agência O Dia

“Há um desencanto geral com o que um dia foi apresentado como alternativa. É verdade que não há uma pauta mais unificada, mas os protestos dialogam com pautas de movimentos menores desde o inicio do ano, como os protestos da Aldeia Maracanã”, afirmou ele, que é do PSol.

Bem-articulado, com ideais firmes que saltam da sua boa oratória, o estudante criticou a atuação da polícia durante os protestos e evitou falar sobre os vândalos, que têm feito depredações durante os protestos.

“A polícia deve privilegiar as pessoas. A polícia pode ser uma forca menos militarizada para saber lidar com manifestações”, afirmou ele, que se organiza com o movimento para o maior dos protestos, no dia 30, final da Copa das Confederações.

Estudante pessimista com o movimento

Rodrigo Kanto, estudante de Direito da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), tem opiniões que vão na contramão do que muitos universitários defendem. Apesar de achar positiva a mobilização, ele acredita que a tendência é que o ato se esvazie, justamente pela falta de uma pauta definida.

“As reclamações estão muito difusas. Angariar gratuidade completa com qualidade é uma falácia. O contrato de concessão de transportes prevê uma possibilidade de fiscalização. Então, que se fiscalize. Para reduzir tarifa tem que saber qual será o impacto na economia”, diz o estudante.

Manifestação de estudantes chegou a Niterói%2C na Praça AraribóiaErnesto Carriço / Agência O Dia

Para o professor de Ciência Política do Instituto de Estudos Sociais e Políticos (Iesp), João Feres Junior, não se deve dizer que o movimento que acontece no país é descentralizado e fadado a não ter resultados.

“O Movimento dos Indignados na Espanha e o Occupy Wall Street foram movimentos descentralizados e que ocorreram de forma espontânea, mas que produziram muito pouco em termos de efeito e resultado. A manifestação no Brasil é mais focada e, de certa forma, almeja algum tipo de vitória”.

Últimas de Rio De Janeiro