Por thiago.antunes

Rio - A ação de baderneiros no Centro quinta-feira pode não ter sido apenas um ato de vandalismo. A polícia afirma ter certeza de que traficantes de diversas favelas do Grande Rio — inclusive dos complexos do Alemão e da Maré — se infiltraram na multidão usando máscaras e camisas na cabeça, armados com paus e pedras.

O objetivo: cometer crimes sem serem reconhecidos. A cúpula da Segurança Pública tenta identificá-los através de câmeras de segurança.

Segundo o Setor de Inteligência da Secretaria de Segurança, na tentativa de depredar a prefeitura, havia muitos bandidos do Morro do São Carlos, no Estácio, que fica logo atrás da sede do Executivo municipal. Alguns deles estariam armados com paus e pés de cabra.

Arruaceiros usando mochilas e escondendo o rosto com camisas ou máscaras estão na mira das forças de segurança estaduais%3A investigaçãoSeverino Silva / Agência O Dia

Agentes garantem que três ônibus saíram da Favela da Grota, no Alemão, e Nova Holanda, na Maré, em direção ao protesto. No entanto, policiais são unânimes ao dizer que não havia ordem deliberada de uma facção.

“Muitos não têm mandado de prisão e, com o enfraquecimento do tráfico em alguns locais, passaram a roubar. Eles aproveitam a oportunidade dessas manifestações para cometer crimes”, disse um agente.

Boatos assustam

Além dos crimes, a boataria sobre protestos e quebra-quebras nas redes sociais ontem colocou cariocas em pânico. Ninguém sabe ainda a origem das falsas notícias, mas, assim como criminosos fazem em favelas, muitas lojas, escolas e empresas fecharam as portas antes do fim do expediente, temendo represálias.

Na Lapa%2C funcionário recebe ordens do chefe para fechar o bar em plena sexta-feira%3A medo de destruiçãoJosé Pedro Monteiro / Agência O Dia

Para tentar tranquilizar a população, a PM passou o dia desta sexta-feira esclarecendo na página da corporação no Twitter o que era verdade ou boato sobre as informações que circulavam.

No bairro da Prata, em Nova Iguaçu, a escola particular Santo Antonio da Prata fechou mais cedo: “Funcionários e alunos foram liberados porque a direção da escola estava com medo”, disse uma professora, que pediu anonimato.

Governador diz que PM evitou danos maiores às pessoas

O governador Sérgio Cabral disse ontem que ‘uma minoria de vândalos’ tem prejudicado o debate e que a polícia foi obrigada a reagir em ‘momentos de radicalismos’. “Ela agiu evitando danos mais graves às pessoas. As imagens falam por si”, declarou ele, que não descarta a possibilidade de rever procedimentos para evitar excessos nas ações.

“Não estou protegendo a polícia, mas também não vou proteger os vândalos. Em uma situação dessas, de excessos, não há vitoriosos”.
Cabral também afirmou que as ‘pessoas que agiram com vandalismo’ estão sendo investigadas.

Já o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, afirmou que não descarta a atuação do Exército para conter a ação de uma minoria que depreda a cidade.

A chefe da Polícia Civil, Martha Rocha, informou que houve oito prisões em flagrante — cinco maiores e três menores — na quinta e que dois homens já foram identificados em atos de vandalismo.

Flagrantes de abusos na internet

Vídeos postados na internet denunciam a truculência de policiais contra quem não participava de atos de violência. Um dos casos, por exemplo, mostra grupo que esperava pela abertura do metrô da Carioca quando foi afugentado pelo Batalhão de Choque com bombas de gás lacrimogêneo.

Na Lapa, reduto da boemia carioca, PMs deixaram as ruas vazias enquanto passavam, enfileirados, jogando os artefatos.

Para Ignacio Cano, coordenador do Laboratório de Análise da Violência da Uerj, a polícia precisa isolar os violentos e proteger os manifestantes, e não agir em várias direções no tumulto. “Não deve ter omissão nem excesso, mas, na dúvida, é melhor conter a ação”.

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