Por thiago.antunes

Rio - Os diretores da Casa de Saúde Pinheiro Machado, em Laranjeiras, confirmaram que a unidade foi invadida por policiais na noite de quinta e repudiaram a ação. Segundo eles, havia cerca de 60 internados no momento da confusão e os manifestantes que estavam dentro da clínica buscavam fugir do confronto, além dos que entraram pedindo atendimento hospitalar por conta de intoxicação do gás. Um defensor público vai entrar com ação civil pública contra o Estado do Rio por ter sido impedido por policiais de entrar na unidade com sua esposa, que faria uma cirurgia de urgência.

“É inegável que bombas de gás e spray de pimenta foram usados no corredor da clínica. O cheiro foi sentido até na área do CTI. Muitos estavam sendo atendidos na hora que a polícia entrou. É lamentável”, disse Joel de Lima, um dos diretores médicos da unidade.

A direção do hospital pretende marcar uma reunião com representantes do governo para falar sobre o incidente e cobra que o caso seja investigado. “A gente espera que a polícia isole a área da clínica numa próxima manifestação, e não que invada o ambiente com bombas”, continuou Joel. Funcionários relatam que a porta da unidade foi quebrada por balas de borracha.

Policiais civis recolheram imagens do circuito interno da clínicaSeverino Silva / Agência O Dia

O defensor público do Espírito Santo, Severino Ramos, 53, tentava acessar a clínica com a esposa, Maria de Lourdes, 53, que vinha em ambulância transferida do Hospital São Lucas, em Copacabana, para operar o coração, mas foi impedido três vezes de entrar por PMs, segundo ele.

“Os manifestantes abriram caminho, mas a PM nos barrou dizendo que fazia uma ação. Tentamos por 4 horas. Minha esposa piorou por causa da polícia, podia ter morrido. Foi omissão de socorro. O Estado vai responder”, disse.

Perguntando sobre o caso, o governador Sérgio Cabral falou que excessos não serão tolerados, de nenhum dos lados, mas não especificou que medidas tomará para coibi-los.

A Polícia Civil recolheu imagens do circuito interno da clínica e vai analisá-las antes de tomar qualquer medida. A PM disse que não vai se pronunciar agora porque não houve por parte da clínica nenhum registro policial ou reclamação formal.

O defensor público do Espírito Santo%2C Severino Ramos%2C 53%2C vai processar o Estado por omissão de socorroSeverino Silva / Agência O Dia

Ferido por bala de borracha teve traumatismo craniano

O defensor público disse que presenciou a ação da polícia na hora em que ela invadiu a unidade hospitalar atrás de manifestantes. “Mesmo com os funcionários gritando que aquela área era particular e que eles não tinham autorização para entrar, os policiais invadiram a área e começaram a jogar spray no banheiro do primeiro andar, sem distinguir quem era manifestante, funcionário ou paciente”, acusou.

Ferido por um tiro de bala de borracha na cabeça, Pedro Guimarães Lins Machado, de 27 anos, permanece internado no CTI da Casa de Saúde Pinheiro Machado. Segundo o boletim médico assinado pelo médico Bruno Kelmer, da unidade, a vítima sofreu traumatismo crânio-encefálico e foi submetido a uma tomografia de crânio, que evidenciou uma hemorragia no lobo frontal.

De acordo com o médico, o jovem não sofre mais risco de morte, mas ficará em observação na unidade. Abalada, a família não quis dar entrevista. A ouvidoria da clínica informou que mais nove manifestantes foram atendidos com ferimentos leves. Funcionários passaram mal. O produtor cultural Thiago Earp, 31, também foi ferido com pelo menos quatro balas de borracha.

O produtor cultural Thiago Earp%2C 31%2C foi ferido por balas de borrachaSeverino Silva / Agência O Dia

Comerciantes e prefeitura contabilizam os prejuízos

Comerciantes e agentes da prefeitura se depararam na manhã de ontem com os prejuízos após a manifestação de quinta-feira. Em frente à sede do governo, operários soldavam grades que cercam canteiros e foram arrancadas durante confronto entre PMs e manifestantes.

Placas de sinalização de trânsito também acabaram quebradas e pedras portuguesas foram retiradas das calçadas.

Na Rua Paissandu, caçambas de lixo foram arrancadas e queimadas. Câmeras de segurança localizadas na parte externa de edifícios acabaram depredadas e uma agência bancária teve a porta estilhaçada na rua Marques de Abrantes, no Flamengo.

Dona de uma banca de jornais na Rua Paissandu, Kênia Melo, 52, amargou prejuízo de R$ 500. “Minha filha me ligou ontem à noite (quinta-feira) e disse que estavam quebrando a banca. Preferi esperar e vir pela manhã. Por sorte, a porta afundou e não conseguiram saquear os produtos”, afirmou a comerciante, que trabalha há 15 anos no local. “Não culpo os manifestantes. Toda força de ação tem uma força de reação”, considerou.

Centrais farão nova paralisação se governo não negociar reivindicações

As centrais sindicais, que organizaram a paralisação dos trabalhadores na quinta-feira, consideraram o Dia Nacional de Lutas um sucesso. Para eles, a intenção principal não era reunir grandes multidões em manifestações, mas sim parar empresas e fábricas e, deste modo, fazer pressão sobre suas reinvindicações, como redução da jornada, melhorias salariais, fim da terceirização no serviço público e suspensão dos leilões de exploração de petróleo, mostrando assim a força dos trabalhadores.

Um novo protesto, já batizado de Dia Nacional da Paralisação, está previsto para 30 de agosto e acontecerá caso o governo federal não atenda as reivindicações ou pelo menos não negocie com as centrais as questões trabalhistas que motivaram a greve deste semana.

“Vamos dar um prazo para o governo cumprir a pauta de reivindicações ou abrir negociações efetivas. Com a paralisação de ontem ganhamos mais fôlego para negociar com o governo”, disse o deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), presidente da Força Sindical.

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