Por tamyres.matos

Rio - A tragédia provocada pelo rompimento de adutora em Campo Grande poderia ter sido muito maior. A avaliação é do presidente da Cedae, Wagner Victer. Ele credita ao monitoramento online o diagnóstico em tempo real do problema e a operação de ‘guerra’ que durou 1h45 para ‘desarmar’ o tsunami que derrubava casas e matou uma criança.

Sem a tecnologia, seriam necessárias seis horas para reduzir o fluxo de água e 12 dias para normalizar o sistema na região. “O que mais me abalou foi a perda de vida humana. A material, vamos ressarcir”, garantiu. Para ele, o primeiro acidente deste tipo na história da Cedae não vai manchar a imagem do órgão.

Presidente da Cedae fala sobre rompimento de adutoraAndré Luiz Mello / Agência O Dia

ODIA: A Cedae já sabe as causas do acidente?

VICTER: Temos evidências, mas, até para não ser leviano do ponto de vista técnico, a gente está esperando a apuração da polícia. Na ida ao local, já constatamos que houve trabalho de terraplanagem e compactação em cima de uma adutora. Mas não quero afirmar nada. Você pode perguntar: um movimento desse rompe uma adutora? Não. Mas uma adutora que está sedimentada lá há décadas, quando você tem movimento, carga, colocação de peso, é como você desassentasse ela. Pode gerar uma trinca, que pode evoluir para vazamento. Mas não quero adiantar, até porque é muito importante ter uma avaliação independente de órgãos.

São comuns essas manobras de máquinas de terraplanagem e pesadas em cima de adutora?

É totalmente incomum, irregular, não pode ser feito sem prévio conhecimento da empresa (Cedae). O que aconteceu hoje (ontem) com a Prefeitura (uma retroescavadeira acertou uma tubulação em Vicente Carvalho) não é uma coisa normal, mas uma coisa que acontece. Lá é um canteiro de obras. Muitas vezes, por mais que você tenha o cadastro, e que o cara consulte o cadastro e tenha licença da prefeitura, o peão, às vezes que está operando a máquina, não atenta para isso, dá um atropelo e rompe (a tubulação).

Mas existe uma regulamentação para evitar esses acidentes deste tipo? A empresa antes de uma obra tem que procurar a Cedae e informar da intervenção?

Qualquer obra tem que ser licenciada pela prefeitura, que (durante o processo de autorização) consulta os cadastros da Cedae (áreas onde têm adutoras e tubulação), da Light, da rede telecomunicação, de gás. Isso é uma coisa normal de se fazer.

Mas a Cedae tem uma equipe para fiscalizar se as empresas estão realmente fazendo obras em locais permitidos?

Tem e faz. Mas, muitas vezes, as intervenções das empresas são muito rápidas ou são pontuais. A gente trabalha muito com a denúncia. Só que, às vezes, as coisas acontece de uma semana para outra. Temos uma série de ações na Justiça de construções que pedimos para desocuparem. Mas tem muita gente que constrói em cima (de adutora e tubulação). Há pessoas morando dentro do reservatório, do lado, numa área tombada, e a gente tenta tirar na Justiça...

Quais tipos de ações na Justiça são mais comuns neste contexto?

Tem de tudo: construção de casa, tem indústria, tem gente que se incorpora ao local...

Existe nestas áreas de tubulação, adutoras, uma sinalização para que não haja construção ou alertando a população para fazer denúncias?

Todas as faixas têm sinalização, marcos, e, geralmente, essas faixas não são ocupadas. Mas o fato de haver isso não impede ocupação irregular do solo. Isso acontece, às vezes, em comunidades, favelas. Essa ocupação irregular é uma coisa muito comum no Rio e em toda cidade metropolitana. A sinalização existe, mas ela não coibe as pessoas. O que a gente faz é identificar, notificar e, muitas vezes, entrar na Justiça.

Mas depois deste episódio em Campo Grande, há intenção em aumentar essa sinalização?

A questão não é a sinalização. Se as pessoas hoje saírem construindo em cima de uma tubulação, eu não posso no outro dia pegar e derrubar, entendeu? Tem que entrar na Justiça.

Este tipo de acidente que ocorreu com a adutora é comum?

Muito. Basta colocar na internet: vazamento de adutoras na Europa, nos EUA. Mas não existe uma ranking de acidentes de adutoras. Foi o primeiro acidente deste tipo na nossa história com morte. O que mais me abalou neste caso foi a perda de vida humana. A perda material, a gente vai trabalhar para ressarcir. Essa é uma postura nossa. Já estamos cadastrando as pessoas, vamos comprar utensílios. Quem não perdeu a casa terá o imóvel reconstruído.

As autoridades estão questionando sobre a manutenção e se há um levantamento de casas próximas a essas estruturas....

Não temos esse número de residências, mas de caso de pessoas que invadem adutoras e entramos na Justiça.

A Cedae tinha recebido alguma denúncia do local do acidente?

Não. Nunca. Só no dia que aconteceu o acidente, enquanto estávamos lá apurando. Em 2010, houve um furo numa tentativa de gato em adutora, mas não nessa (de Campo Grande). Foi na de Ribeirão das Lajes. Com o furo, houve o vazamento de água e entrou na casa de uma pessoa, que foi indenizada.

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