Por raphael.perucci
Publicado 11/08/2013 01:30

Rio - Pesquisa realizada pela Associação Brasileira de Recursos Humanos do Rio de Janeiro (ABRH-RJ) mostrou que menos de 10% das 1.800 empresas que deveriam destinar até 5% do quadro profissional para pessoas com deficiência (PcDs) não estão cumprindo a Lei de Cotas. Há quase quatro milhões de deficientes em todo o Rio, segundo o resultado do censo mais recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), de 2010.

“Muitas empresas não cumprem a determinação por falta de informação, e não porque estão agindo de má fé”, acredita José Pinto Monteiro, diretor de responsabilidade social da ABRH-RJ. Para reverter o quadro, a associação criou o Programa de Responsabilidade Social, com a formação de um Grupo Executivo composto por mais de 100 empresas associadas. A ideia é debater temas como o cenário atual, histórico, empregabilidade e medicina do trabalho, além de promover práticas que contribuam para o cumprimento da legislação, criando pontes entres os PcDs e as empresas. “Grandes companhias costumam ter profissionais que cuidam de ações afirmativas, mas a verdade é que o conjunto do mercado não funciona assim”, diz Monteiro.

Novos rumos

Para a assistente de gerente Marcielle Adrianne Pereira Vargas, de 31 anos, a realidade já está mudando. “Nunca percebi tratamento diferenciado. Aqui é todo mundo igual”, comenta Marcielle, que trabalha no Banco Itaú há oito anos. Após sofrer um acidente de carro na adolescência, quando tinha apenas 16 anos, e perder parte do braço esquerdo, a moça formou-se em Comunicação Social e cresceu na profissão.

O cargo que exerce atualmente exige a capacidade que Marcielle já provou ter. “Faço captação de recursos, venda de produtos e lido com grandes quantias. A cobrança dos superiores é de 110%”, comenta, sem tirar os pés do chão. “Vivemos em um mundo preconceituoso. Se não fosse a cota, muita gente capacitada perderia a vaga para pessoas bonitinhas com metade do currículo”, avalia.

A Lei de Cotas 8.213/91 determina o percentual mínimo entre 2% a 5% de vagas para pessoas com alguma deficiência, em empresas com mais de 100 funcionários.

Associação promove debates

O projeto inclui pesquisas sobre inclusão da pessoas com deficiência, com dados de questionários aplicados a dezenas de companhias. “Algumas empresas têm dificuldade em achar o deficiente ou inseri-lo no seu quadro de funcionários”, aponta Patrícia Pacheco, também diretora de responsabilidade social da ABRH-RJ: “Percebemos que faltam estudos sobre o tema”.

O grupo executivo promove encontros mensais para debates que apontem novos caminhos para a inserção no mercado de trabalho. Empresas interessadas em participar devem enviar e-mail para relacionamento2@abrhrj.org.br e baixar o material apresentado nos quatro encontros já realizados, disponível para download no site www.abrhrj.org.br.

De acordo com o assistente social da Petrobras Distribuidora, Martinez Teixeira, muitas empresas precisam de ajuda para mudar a visão em relação à realidade das pessoas com deficiência. “Havendo essa transformação de mentalidade na gestão, consequentemente os funcionários também mudarão”, analisa.

'Meio corporativo precisa mudar'

Para a pedadoga e orientadora educacional Jussara Xavier, de 55 anos, o processo de inserção não deve se limitar apenas ao preenchimento das cotas. Seu trabalho procura sensibilizar empresas para incorporar o PcD como membro ativo e igual em seu quadro. “O profissional deve ser incluído na empresa como outro indivíduo qualquer”, defende. Segundo Jussara, os empregadores precisam identificar qual a limitação específica do PcD e contratá-lo para uma função que possa desenvolver. “Todo profissional tem limites que precisam ser respeitados”, pondera. De acordo com a orientadora, no passado, muitos PcDs eram consideradas inválidos e ficavam em casa porque não havia espaço no mercado.

Há nove anos na área de inclusão social, a pedagoga conta hoje com cerca de mil profissionais em seu banco de dados — na consultora Motivendas — e vê o futuro com otimismo. “Depois que a legislação permitiu a entrada de profissionais com deficiência no mercado, há cerca de 20 anos, estão cada vez mais qualificados, com pós-graduação e falando outros idiomas. Já são mais solicitados em grandes empresas. A maneira como são vistos pela sociedade está mudando”, encerra.

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