Por raphael.perucci

Rio - No meio da confusão peculiar da Lapa, um senhorzinho se destaca, colado na mesa do bar entre os jovens beberrões, com um requinte quase secular. Orgulhoso de seu terno perfeitamente passado, de colete, gravata, lenço e o cabelo milimetricamente penteado, José da Silva Loureiro, de 80 anos, desfila em frente a pés sujos, fazendo jus a uma linhagem de alfaiates importada de Portugal, do qual é o último representante. Por todo lado, são saudações e gritos de “Gravatinha” e “Vizinho”, como é conhecido na área há 60 anos.

Alfaiate Loureiro%2C conhecido como 'Gravatinha'%2C é figura carimbada das feiras da Rua do Lavradio%2C na LapaCarlo Wrede / Agência O Dia



“Ando assim para tirar onda de antigo”, admite o risonho Gravatinha, figura carimbada das feiras da rua do Lavradio, onde inclusive ajuda os comerciantes a fiscalizar quem sai sem pagar. Diariamente, está no bar Esperança, na rua do Senado, para o café às 4h40. Pega até o leite e abre a porta para funcionários. Volta antes do almoço, de tarde, de noite. Nos intervalos, trabalha em seu ateliê, na rua Gomes Freire, que parece uma viagem no tempo, com ferros, tesouras e máquinas da década de 50. “Gasto tudo que é trocado na farra: vinho e bacalhau”, justifica.

Vizinho veio para o Brasil aos 19 anos, “porque era a moda da época”. É alfaiate desde os 13 anos, assim como seu pai, avô, irmãos. “Se paro de trabalhar, morro. Não sirvo para ficar em casa de boca aberta”, comenta. Apesar da procura por alfaiates estar caindo, já que “ninguém mais usa terno, só querem saber de jeans e de comprar roupa a prestação”, Gravatinha ainda tem clientes fiéis, inclusive policiais. “Mas os delegados preferem manter seus nomes e roupas em sigilo para parecer pobres”, pondera.

Dono de mais de 30 ternos, não usa outro tipo de roupa. Quando chove, tecido escuro. Se faz sol, claro. Para ir à feira, gravata borboleta. “A roupa no alfaiate dura muito mais, e fica sob medida”, elogia seu Loureiro, que leva uma semana para terminar um terno e cobra mil reais cada um. Morador da rua dos Inválidos, observa a “bagunça” atual da Lapa, mas não se espanta. “É uma zona, morro de rir. Conheço muita gente, gosto da rua”, comenta ele, que, viúvo, nunca arrumou substituta para “não ter trabalho”. Tem dois filhos, que deram fim ao dom hereditário.



FALTAM ALFAIATES E COSTUREIRAS NO RIO DE JANEIRO?
Sim. O sindicato da categoria diz que o setor abre 500 vagas todo ano e hoje há 140 vagas esperando por candidatos.

HÁ CURSOS PROFISSIONALIZANTES?
Sim. A Faetec, por exemplo, oferece. Muitos formados formam pequenas fábricas ou lojas, ao invés de atuar de forma autônoma, como antes.

QUANTAS COSTUREIRAS HÁ NA CIDADE?
São 26 mil autônomas, segundo estudo Território da Moda, feito pela prefeitura, Sebrae e FGV, para mapear a cadeia produtiva da moda.

QUAL O FATURAMENTO DO RAMO AQUI?
Cerca de R$ 900 milhões. De acordo com o estudo, são 32 mil empregados na área, 18 mil formalizados e 14 mil informais.

COMO OS PROFISSIONAIS SE MODERNIZARAM HOJE?
Alfaiates fazem mais ajustes que confecção de roupas e costureiras se especializam e entram em cadeias produtivas.

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