Doar um órgão ao pai: prova de amor que salva uma vida

Doadores e transplantados falam sobre as emoções que envolvem o processo em família e as alegrias depois da cirurgia

Por O Dia

Rio - Eles receberam uma segunda chance de viver daqueles a quem deram a vida. No dia de hoje, pais que foram ‘salvos’ após receber transplante de órgãos doados pelos filhos contam como é renascer pelo amor incondicional. O funcionário público José Carlos Cabral Beltrão, 53 anos, ainda se emociona ao lembrar do dia 8 de maio de 2012, quando foi ‘presenteado’ pelo primogênito. O jovem de 32 anos deu um dos rins para o pai, que se livrou das sessões quase diárias de hemodiálise.

“Entrava na máquina para depurar o sangue e não sabia se iria sair. Quando o Marcelo disse: “pai, quero fazer os exames para doar o rim, não aceitei. Imaginei que ele precisaria do órgão no futuro. Achava que já tinha vivido o suficiente e que ele ainda tinha muito o que passar na vida. Errei. Hoje, ele significa um pai para mim. Invertemos o papel, e eu sou muito feliz por ter um filho que deu essa demonstração de amor ”, afirmou Beltrão.

José Carlos e Marcelo%3A filho%2C preocupado com a fragilidade do pai após as hemodiálises%2C deu um rim para elePaulo Alvadia / Agência O Dia


Marcelo contou que não foi uma decisão difícil e o que pesou era ver como seu pai ficava fragilizado ao término de cada sessão de hemodiálise. “Foi um gesto de carinho, resultado de um vínculo que sempre tive com meu pai. Li sobre como seria o pós-cirúrgico, as limitações e vi que não mudaria nada na minha vida”, contou o servidor Marcelo Santos Beltrão, 32.

A comemoração hoje na casa da cabeleireira Eliana Moreira, 37 anos, também será especial. Há cerca de 40 dias, ela foi para mesa de cirurgia por um único motivo: acabar com o sofrimento do pai, o aposentado Walmor Wivian, 64 anos.

Há um ano e oito meses, ele fazia hemodiálise e mantinha a esperança da cura na fila de transplante. “Acredito que era minha missão. Quando meu pai ficou doente, pedi a Deus para que ele o curasse. Fizemos os exames e descobrimos que, dos três filhos, eu era a que tinha 100% de compatibilidade. Não pensei duas vezes. Faria tudo de novo”, contou ela, que teve todo o apoio do marido e dos dois filhos.

Uma questão psicológica

O chefe do serviço de Nefrologia do Hospital Federal de Bonsucesso (HFB), o médico Luiz Fernando Christiani, explicou que a barreira para o transplante de filhos para pais deve-se muito mais a uma questão psicológica do que de compatibilidade. “Um filho é metade (geneticamente) de um pai. Mas muitos pais não querem vê-los se submetendo aos riscos de uma cirurgia para ajudá-los”, explicou Christiani, que participa de renomada equipe que fez, de maio até agora, 50 transplantes no HFB. 

A constatação do médico é bem verdadeira. O aposentado Walmor Wivian, 64, que recebeu o rim da filha, Eliana Moreira, 37, disse que preferiria receber o órgão de um “cadáver”, mas a coragem da filha o contagiou. “Ela foi uma guerreira para salvar minha vida”.

Últimas de Rio De Janeiro