Padre Omar: 'Carioca deve ter braços abertos'

Reitor do Santuário do Cristo Redentor assumirá mais um desafio: será responsável por uma coluna no DIA

Por O Dia

Rio - Carioca de Ipanema, torcedor do Fluminense, sambista, instrumentista, comentarista, apresentador de TV, reitor e guardião do Santuário do Cristo Redentor. Para padre Omar Raposo, de 34 anos, as 24 horas do dia são poucas para dar conta de tantos compromissos na agenda. Ele sabe como poucos unir a fé à paixão antiga pela música sacra e popular. No ano passado, gravou o CD ‘Peço a Deus’,com a participação do sambista Diogo Nogueira e repertório eclético que vai do samba ao rock.

Assim como o Corcovado, o pároco está sempre de braços abertos para acolher tantas missões sob sua responsabilidade. No próximo domingo, o religioso assumirá mais um desafio: será responsável por uma coluna no DIA, oferecendo aos seus leitores doses semanais de impressões, fatos do dia a dia, ideias e sentimentos sobre o Rio de Janeiro.

O DIA: Em que momento da vida descobriu sua vocação para a vida religiosa?
PADRE OMAR: — Foi em 1997, quando vi o Papa João Paulo II passear dentro do papamóvel pelo Rio de Janeiro. Eu tinha 18 anos e havia acabado de ser barrado para cantar no coral que se apresentaria para Sua Santidade. Sai extremamente chateado e me deparei com o papamóvel. Senti uma emoção tão grande e a certeza de que queria ser padre.

Padre Omar é o Reitor do Santuário do Cristo RedentorMaíra Coelho / Agência O Dia

Seus pais aprovaram?
Apesar de minha família ser católica, inicialmente eles não apoiaram o meu desejo. Quando minha mãe viu que não tinha volta, ela me deu um conselho que eu carrego comigo até hoje: “Seja bom sempre, na enxada ou na embaixada”. Esse ensinamento de que todo mundo merece a palavra de Deus me marcou muito. Com meus pais aprendi que em tudo na vida temos que dar o melhor de nós, ser simples, para que sejamos uma luz na vida das pessoas, como foi Jesus Cristo. Como disse o Papa Francisco, todos os padres devem ter essa simplicidade.

Como foi sua primeira experiência como padre?
Fui ordenado em 2004. O então arcebispo dom Eusébio me designou para ser o pároco da Igreja Nossa Senhora de Guadalupe, no Complexo do Alemão, antes da pacificação. Foi um início difícil, porque embora a comunidade fosse maravilhosa, o tráfico tomava conta.

Minutos antes da ocupação pela polícia no Complexo do Alemão, o senhor rezou no alto do Cristo. Como foi esse momento?
Estava celebrando missa naquela hora. Havia o temor de que muitas pessoas pudessem morrer no confronto entre policiais e traficantes. Conclamei as pessoas a rezar um Pai Nosso voltadas em direção ao Complexo do Alemão. Naquele momento, vimos o poder da oração. O Rio de Janeiro não pode ser referência de violência.

Como o senhor vê essa onda de protestos que tomou conta do Brasil?
A juventude passa por forte momento de questionamento. A ausência de melhoras cria uma angústia. A grande resposta hoje é a esperança. Não podemos perdê-la, exatamente como nos disse o Papa Francisco. O futuro só melhora a partir de um presente construído com perspectivas. O Pontífice falou da inquietação dos jovens. A paz que vem de Deus não é uma paz que deixa na passividade. A busca pela paz implica a proatividade, a tomada de iniciativas. Nesse sentido, devemos buscar de fato as soluções. Ir ao encontro das realidades dos mais necessitados, cobrando políticas públicas para todos, dos jovens aos idosos. O discurso social da Igreja é muito preciso. Nunca pode perder de vista a solidariedade o bem comum.

O senhor acredita que a passagem do Papa Francisco pelo Brasil aumentará o rebanho católico?
A Jornada Mundial da Juventude criou um pacto na história do catolicismo no Brasil jamais visto. Ainda é cedo para poder aferir a proporção desse impacto nos corações. Mesmo pessoas de outras religiões se sentiram tocadas pelo Papa Francisco. Um sentimento bom que encantou a todos. Percebo que há uma carência de líderes nas instituições. O Papa é o líder da maior religião. Ele falou com muita simplicidade o pensamento da Igreja, fundamentando seu discurso no amor e na simplicidade.

Padre Omar posa ao lado de turistas em frente à estatua do Cristo Redentor%2C da qual toma conta há anosMaíra Coelho / Agência O Dia


Preocupa o crescimento dos evangélicos?
Mais do que a preocupação com a quantidade, o importante é a qualidade dos católicos. O Papa pediu que os padres deem mais atenção ao trabalho das pastorais e nas periferias. O Papa Francisco alerta que a Igreja não é ONG. O aspecto que reduz a caridade ao assistencialismo não pode se sobrepor à solidariedade que se fundamenta no evangelho. Para que haja aumento de fiéis, a palavra-chave é o acolhimento, estar disponível, receber bem, sair da sacristia, ir ao encontro dos fiéis.

O Papa agradeceu muito a acolhida carioca...
Foi show de bola. O carisma do povo carioca está simbolizado na imagem do Cristo Redentor que recebe a todos de braços abertos. O carioca sabe acolher, apesar de todas as crises das instituições, a corrupção, a impunidade, a violência, baixos salários, a falta de investimento.

Como o senhor gostaria que o leitor se sinta depois de ler sua coluna?
Que todos se sintam ainda mais cariocas e solidários na missão do Cristo Redentor, que é a de manter sempre os braços abertos para o outro.

Há alguma novidade à vista no Cristo Redentor?
Durante a Jornada Mundial da Juventude, o Cristo passou por um momento inédito nos seus 81 anos. Mostrou a mesma disposição do Papa Francisco e ficou aberto 24 horas, sete dias na semana. Agora que o evento terminou, vamos dar início ao restauro anual no monumento, no mês que vem, fazendo a limpeza e a manutenção do Cristo para deixá-lo sempre novo. Já na primeira quinzena de setembro, vamos colocar em funcionamento a Central Digital de Informações. Serão cinco telões interativos para os visitantes, que poderão ser acessados ao toque das mãos. Os painéis trarão informações em sete idiomas sobre a história do Cristo Redentor, da Arquidiocese do Rio e de pontos turísticos da cidade. Dois telões ficarão localizados próximos às escadas e os demais no mirante.

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