Rio - Jandira Feghali, 56 anos, do PCdoB, está em seu quinto mandato como deputada federal – teve um de deputada estadual antes – e acaba de anunciar que sua candidatura a governadora do Rio é uma possibilidade. Ela faz questão de dizer que, mesmo se realmente for candidata contra vários nomes de partidos da base aliada, não entrará em nenhuma disputa que signifique oposição à presidenta Dilma Rousseff e sempre se alinhará à esquerda. Em visita ao DIA na sexta-feira, a presidente da Comissão de Cultura da Câmara dos Deputados falou muito de política e analisou os movimentos que tomaram as ruas do país a partir de junho.
Acostumada a protestar desde sempre, Jandira hoje tem que dar um jeito de manter a coerência como política de esquerda e sossegar o coração de mãe desde que a filha universitária de 20 anos resolveu que também iria para as ruas.
O DIA: Como a sra. reagiu quando sua filha avisou que queria ir aos protestos?
JANDIRA: Ela disse: “Mãe, eu vou.” Quem sou para dizer que não vai? Não tenho a menor autoridade para dizer isso. Eu vivo na Candelária, vivo na Rio Branco... Mas dava orientação sempre: “Não chega perto da Assembleia hoje, que o negócio complicou...” Trocando torpedo o tempo todo.
A sra. foi com ela a alguma manifestação?
Não, ela foi com o grupo dela.
Qual a sua avaliação das manifestações, desde que começaram em São Paulo, em junho, tendo o sistema de transportes como alvo?
Quando essas manifestações surgem com uma pauta local (transportes) é contra qualquer governo local, seja do PSDB, do PMDB, do PT... Não acho que o movimento foi tutelado por nenhuma força especial contra especialmente ninguém. As bandeiras que vieram para as ruas foram múltiplas. E as manifestações deixaram de ser todas iguais. Começou com os setores médios da sociedade, que têm um grau maior de informação, e que, porque têm mais direitos, exigem outros, passam a exigir mais. Existe, de fato, o momento de dar um salto na qualidade de vida. As bandeiras das ruas foram Saúde, Educação e Transportes.
Na sua avalição, essas pessoas que saíram às ruas têm claro qual deverá ser o próximo passo?
Nos preocupa ver muita gente na rua sem uma organização. Isso corre risco de captura, e deve ser uma preocupação para quem tem uma tradição de formação mais à esquerda. Você precisa ao mesmo tempo ir dando uma organicidade a um movimento como esse, não para tutelar, mas para dizer que esses movimentos precisam organizar suas bandeiras. Muitos deles chegaram para nós e perguntaram: “Nós vamos para onde com isso tudo? Quando é que isso pode dizer que teve vitória?” Quais são as vitórias reais? Você não pode ficar em passeata eterna. Em algum momento, você tem que dizer “conquistei vitórias”. Ajudar a ter vitória não é que você vai tutelar, mas não pode permitir uma captura. Todo mundo tenta levar isso para o lado que quer. Eu acho que a gente tem que tentar decodificar o que esse movimento quer. Ninguém hoje se arrisca a dizer exatamente o que esse movimento quer. E agora o fator de mobilização são os dois governadores Sérgio Cabral (PMDB) e Geraldo Alckmin (PSDB).
E o que há de negativo nessa mobilização?
O que é ruim no processo é a negação dos partidos, que são parte da luta da rua. A gente diz: “Quem nunca dormiu saúda o Brasil que acordou.” Nós nunca dormimos. Você não quer tutelar nada, mas você não pode ser excluído. As pessoas estão nas ruas hoje porque alguém lutou para que as ruas estivessem abertas para isso. O movimento democrático não exclui ninguém, tem que incorporar todo mundo. Ninguém pode ser expulso da rua porque nunca saiu de lá. Você não pode tutelar, mas não pode permitir uma captura neonazista e fascista.
E quanto à chamada 'crise de representatividade', como chegamos a isso?
Dar sustentação ao governo pelo que representou de mudança (o de Luiz Inácio Lula da Silva) também exigiu muito dos partidos de esquerda, que tiveram o bônus de sustentar uma vitória, mas também muito ônus de dar sustentação a um governo na complexidade que é o Brasil, deste tamanho. Esses partidos tiveram também todo o desgaste de ser governo e de não dar todas as respostas que o povo exige.
Nesse quadro, a ex-senadora Marina Silva tenta criar um novo partido, a Rede Sustentabilidade. Onde a Rede se encaixa no cenário político de hoje?
Boa pergunta. A Rede precisa se autodefinir. A gente não sabe ainda. Se eles não sabem exatamente qual é a posição deles, eu é que vou saber? A rede sai como se fosse uma alternativa a tudo, mas não é, né? Eles tentam surgir como algo meio amorfo, em que cabe tudo, e não se posicionaram exatamente em que campo eles estão.
Eles não dizem sua posição porque esta é a natureza deles ou para não se comprometer agora?
Pode ser as duas coisas.
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