Por tamyres.matos

Rio - Para os moradores, parece que a noite de 29 de agosto de 1993 nunca acabou. A sensação é que o rastro de sangue e dor provocado pela Chacina de Vigário Geral foi simplesmente deixado de lado. Os que levam na memória as cenas dos crimes e dezenas de promessas feitas nos últimos 20 anos garantem que o panorama na favela que leva o nome do bairro é o mesmo. Entre reclamações da falta de saneamento, escolas e postos de saúde, o eco das armas continua a ditar as leis no local, abandonado.

Desde a morte de 21 pessoas inocentes, o Parque Proletário pouco mudou. Visualmente, apenas algumas ruas, por onde passaram os mais de 30 policiais que comandaram a barbárie naquela noite, foram modificadas No ponto principal das execuções, a Tendinha do Joacir, onde morreram sete pessoas, já não existe mais e, em frente, na casa dos evangélicos Gilberto e Jane, onde foram mortas outras oito pessoas, foi construída a ONG Casa da Paz, mas que está fechada.

Corpos foram colocados lado a lado na manhã seguinte à barbárieAgência O Dia

Até hoje, a comunidade continua tendo apenas uma escola, a creche municipal Acuã, e uma unidade de saúde, o Centro Municipal Iraci Lopes. Não há unidades de Ensino Médio no bairro, e as crianças, assim que se formam, têm de estudar em bairros vizinhos. A reforma da Escola Municipal Jorge Gouvêa, que é antiga e feita de blocos de concreto, é aguardada até hoje.

“Sai governo, entra governo, eles só lembram de nós em datas comemorativas como essa e na época das eleições. São 20 anos de atraso e quem é daqui, quando vai procurar emprego, coloca que é do bairro Jardim América, pois sofre preconceito. Ficamos conhecidos como o local da miséria e nela continuamos”, enfatizou o presidente da Associação de Moradores de Vigário Geral, João Ricardo, o JR.

Anistia acompanha drama

Passados 20 anos da barbárie, a Anistia Internacional tem acompanhado o caso e afirma que a ‘impunidade persiste devido, especialmente, à morosidade e deficiência do sistema de justiça criminal, às ameaças sofridas pelas testemunhas e a ausência de um mecanismo externo de controle da atividade policial’.

Traficantes colocaram quebra-molas para obrigar motoristas a reduzir velocidade e ziguezaguearAgência O Dia

O desembargador da 2ª Câmara Criminal José Muiños Piñeiro, então promotor do caso, também acredita que a condenação de apenas sete dos 52 denunciados não foi suficiente. Isso sem falar que dos condenados, apenas um continua preso, Sirlei Alves Teixeira. No entanto, ele teria cometido outros crimes enquanto estava foragido, motivo pelo qual permanece no presídio.

A Chacina de Vigário foi planejada por policiais militares para ‘vingar’ a morte de quatro colegas pelo tráfico na noite anterior.

Promessa de escola e clínicas

A Secretaria Municipal de Educação disse que finaliza instalação de aparelhos de ar na Jorge Gouvêa, e a Secretaria Estadual de Educação comunicou que há projeto de criação de unidade de Ensino Médio, mas em Parada de Lucas, em 2015. A Secretaria Municipal de Saúde pretende inaugurar duas Clínicas da Família na região até 2016. A Cedae afirma que a comunidade e região estão abastecidas.

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