Por cadu.bruno

Rio - A reconstituição do desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza, 47 anos, na Favela da Rocinha, Zona Sul, ainda não havia terminado até às 6h30 da madrugada desta segunda-feira. O trabalho estava marcado para começas às 15h, mas começou apenas às 18h43 deste domingo e já dura mais de 12 horas.

Reconstituição do desaparecimento de Amarildo foi realizado durante a noite e madrugadaAlessandro Costa / Agência O Dia

O primeiro ato ocorreu no ‘coração’ da Rocinha, a localidade da Cachopa, e foi acompanhado por moradores. Com movimentação intensa de veículos e pedestres, o local parou para ver o depoimento de um dos PMs, que pediu para ficar encapuzado por morar em local de risco e temer represálias. Muitos moradores tiravam fotos e gritavam ‘Cadê o Amarildo?’.

O trânsito foi interrompido pela polícia por 15 minutos, durante a reprodução. Ali, os agentes tentaram checar a informação de que o PM teria parado para buscar um colega. Toda a ação foi filmada e fotografada por policiais do núcleo de Depoimentos Especiais da DH.

Delegado Rivaldo Barbosa (à esquerda) participa de reconstituição na RocinhaAlessandro Costa / Agência O Dia

Os quatro policiais que abordaram Amarildo e o levaram ao Centro de Comando e Controle, na Rua 2 da favela, e posteriormente à sede da UPP, na localidade do Portão Vermelho, no Parque Ecológico, percorreram, junto com agentes da Divisão de Homicídios (DH) e da Core, além de representantes do Ministério Público (MP), os últimos passos do pedreiro na comunidade.

O delegado titular da DH, Rivaldo Barbosa, foi em seguida para a sede da UPP, onde o ex-comandante da unidade, major Édson Santos, e outros nove policiais de serviço no dia 14 de julho, data do desaparecimento de Amarildo, seriam ouvidos. A imprensa não teve acesso ao Parque Ecológico e não pôde acompanhar esta parte da reconstituição. Rivaldo não quis dar declarações sobre o trabalho realizado até então na favela.

PM que estava de serviço no dia do desaparecimento de Amarildo usa capuz e máscara durante reconstituição realizada pela Divisão de HomicídiosMaíra Coelho / Agência O Dia

Os quatro PMs que abordaram Amarildo: Vitor Vinícius da Silva, Douglas Roberto Vital Machado, Jorge Luís Gonçalves e Marlon Campos Dias foram levados, um de cada vez, para a localidade da Cachopa, da Roupa Suja, onde mora a família do pedreiro, para o Centro de Comando e Controle e para a sede da unidade. O objetivo da DH é encontrar possíveis contradições entre os depoimentos prestados por eles anteriormente e o que foi dito, e filmado, na reconstituição.

O MP pediu a expulsão dos quatro e do ex-comandante, major Édson Santos. Na ação civil pública, proposta pelo órgão, eles são acusados de improbidade administrativa e é pedida a suspensão do porte de arma, além do recolhimento dos distintivos dos cinco.

Tropa de elite fez ação no dia do sumiço

O terror com hora marcada, praticado por homens bem treinados. Ao assumir em setembro do ano passado a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) na Rocinha, o major Edson Santos levou uma novidade a tiracolo: 20 PMs que passaram por cursos de guerra e selva do Batalhão de Operações Especiais (Bope) para combater o tráfico de drogas em ações constantes e noturnas. A tropa era vista, quase sempre, usando uniforme preto, diferente do oficial azul claro e escuro, padronizado pela PM para as equipes das unidades pacificadoras.

Entre as atividades atribuídas à equipe especial estava a obstinação do comandante por localizar as armas escondidas pelos traficantes, em especial os fuzis. Foi com esta missão que a tropa se reuniu para realizar uma operação secreta na Rocinha no dia em que ajudante de pedreiro Amarildo de Souza sumiu, em 14 de julho, após ser preso por PMs. O comandante pediu inclusive reforço à Polícia Civil para o que grupo classificava como “o dia da guerra”.

O major Edson estava obcecado por localizar as armas — parte remanescente do arsenal deixado pelo traficante Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, preso antes da ocupação do morro pela PM. Foi justamente pela determinação de rigidez, que a sua ‘tropa especial’ passou a agir sempre à noite, e com acusações de seguidas agressões a moradores e usuários de drogas.

A cada interpelação era um interrogatório e nem sempre com psicologia moderna. Tanto que associação de moradores, Polícia Civil e Ministério Público passaram a registrar um aumento nas denúncias de agressões, que aconteciam com maior frequência com a equipe da noite.

O major Edson Santos%2C da UPP%2C pediu reforço à Polícia Civil para o que teria classificado como o ‘dia da guerra’Alessandro Costa / Agência O Dia

Os 20 policiais estavam na turma dos agentes que em fevereiro e março do ano passado foram afastados do Bope após a recusa de combater os colegas em greve. Transferidos por castigo para os batalhões do interior — a maioria em Campos, Macaé e Nova Friburgo —, os caveiras foram recrutados pelo major, que também teve passagem ela unidade especial da PM. As nomeações foram publicadas no boletim interno da corporação, em setembro, mas como eles passaram por outros batalhões, a nova acomodação não chamou a atenção.

O estilo ‘trator’ do comandante

O estilo “trator” do major Edson Santos causou arranhões na Rocinha. Um deles com a associação de moradores, após implicar e remover o patrocínio feito por uma empresa de telefonia para a exibição da logomarca nos coletes de identificação de mototaxistas.

O policial, que passou antes da UPP pela Operação Barreira Fiscal, da Secretaria de Governo do Estado, foi nomeado com a recomendação de um secretário influente no Palácio Guanabara. A indicação, inclusive, magoou alguns políticos com bom trânsito na Rocinha e que preferiam um policial mais ‘light’.

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