‘Ocupação cultural’ depois de expulsão da Câmara dos Vereadores

Professores retirados por PMs do plenário resistem em acampamento na Cinelândia

Por O Dia

Rio - Professores e pessoal de apoio da rede municipal de ensino promovem nesta segunda-feira atividades pedagógicas e culturais como forma de protesto pela desocupação dos servidores pela Polícia Militar do plenário da Câmara de Vereadores. Até as 22h de ontem a agenda não tinha sido divulgada pelo Sepe (sindicato da classe).

Outro objetivo da categoria é manter o acampamento instalado na Rua Alcindo Guanabara. Os profissionais se revezam dia e noite em nove barracas. Há temor de a Guarda Municipal retirar o grupo para cercar o prédio da Câmara Municipal e evitar a entrada de sindicalistas na sessão de amanhã, quando está prevista a votação do plano.

Profissionais da Educação promoveram neste domingo ato público pacífico ao lado da Câmara. Grupo se reveza em nove barracas Estefan Radovicz / Agência O Dia

Segundo uma das coordenadoras do Sepe, Ivanete Conceição da Silva, a categoria não pretende acompanhar hoje as reuniões das comissões que vão dar parecer ao texto. “Queremos a retirada do plano, não vamos desistir enquanto o projeto tramitar. Não interessa participar de uma reunião que vai discutir algo que não nos agrada. Esse plano é uma ofensa à categoria”. Apesar da imposição, a Prefeitura do Rio deve permanecer com o regime de urgência no projeto de lei, e não há intenção de retirar o texto.

O Sepe também decidiu entrar com ação na Justiça para denunciar a ação da Polícia Militar: “Eles não apresentaram qualquer documento determinando a nossa saída. Fomos massacrados no plenário, não respeitaram mulheres ou idosas”, argumentou Gesa Linhares, outra coordenadora do sindicato.

Em nota, a Câmara agradeceu o “apoio da Polícia Militar no processo de desocupação do Palácio Pedro Ernesto.” Segundo o documento, existe uma posição da Justiça em relação à reintegração de posse da Casa, emitida pelo desembargador Fernando Fernandy Fernandes: “Não há necessidade, evidentemente, de se ocuparem os recintos do prédio público, de uso especial, passando a morar no local, que não está preparado para tanto”.

Professores e policiais se enfrentaram sábado à noitePaulo Araújo / Agência O Dia

Por volta das 15h30, um perito da Polícia Civil entrou no prédio da Câmara para vistoriar o local. Segundo ele (que não se identificou), a perícia era para identificar possíveis danos ao patrimônio público. Os professores que estavam no local reclamaram da falta do acompanhamento de um representante do Sepe e aproveitaram a presença do perito para informar que muitos pertences ainda se encontravam dentro do plenário.

Cabral critica ocupação da Câmara

O governador Sérgio Cabral criticou ontem a ocupação do plenário da Câmara de Vereadores por servidores da Educação municipal do Rio. Segundo ele, a participação da população é importante, mas a invasão da Casa prejudica o diálogo: “Acho que, em tese, ocupar o plenário do Poder Legislativo não é a melhor forma de se dialogar e de se acompanhar o debate.”

O comandante-geral da Polícia Militar, coronel Luis Castro, defendeu que o efetivo “não usou gás ou bala de borracha dentro do plenário” e ressaltou que na área externa da Câmara “houve resistência para dificultar o trabalho da PM”.

RECONHECIMENTO E AMOR EM TEMPOS DE GREVE

Fernando e Vagnar namoraram no portão durante a ocupaçãoLuisa Bustamante / Agência O Dia

Ao saber da retirada dos professores do plenário da Câmara, as alunas Stefanie, 6 anos, e Rayane, 11, da Escola Municipal Mem de Sá, no Rio Comprido, perguntaram para a avó delas, Solange Jacques, se a professora de Artes Laura Cabral de Mello, 48, estava machucada. “Quando contei para as meninas que ela estava bem e se encontrava na Cinelândia, tiveram a ideia de levar rosas para homenageá-la”, contou Solange.

“Nossa prioridade é melhorar a qualidade de ensino para os nossos alunos. Estou emocionada em receber essa homenagem inesperada. O carinho mostra que estamos no caminho certo”, declarou Laura.

Já a merendeira Cláudia Rodrigues, 50 anos, 27 de Prefeitura do Rio, estava emocionada ao relembrar os momentos de pânico. Ela ocupava o plenário da Casa desde quinta-feira: “Fui empurrada, levei chutes, arrastaram a gente pelo chão. A covardia deles é combustível para a nossa luta.”

Sábado à tarde, horas antes da desocupação, o professor Fernando Pinheiro, 38, recebeu visita da namorada Vagnar da Silva, 31. Para não deixar o prédio da Câmara Municipal — se ele saísse não poderia voltar a entrar —, o docente acabou namorando assim, no portão. Vagnar fez duas viagens para o Palácio Pedro Ernesto naquele dia para levar roupas e artigos de higiene para o namorado.

Colaboraram Luisa Bustamante e Vania Cunha

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