Por thiago.antunes

Rio - O juízo da 35ª Vara Criminal da Capital, do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJRJ), aceitou a denúncia e decretou nesta sexta-feira, a prisão preventiva dos 10 policiais militares acusados de torturar e matar o ajudante de pedreiro Amarildo de Souza, na Favela da Rocinha. Amarildo desapareceu no dia 14 de julho, após ser levado à sede da UPP da Rocinha.

Entre os indiciados está o ex-comandante da UPP Rocinha, major Edson SantosAlessandro Costa / Agência O Dia

Os acusados vão responder pelos crimes de tortura seguida de morte e ocultação de cadáver. São eles: O ex-comandante da UPP, major Edson dos Santos, Luiz Felipe de Medeiros, Jairo da Conceição Ribas, Douglas Roberto Vital Machado, Marlon Campos Reis, Jorge Luiz Gonçalves Coelho, Victor Vinícius Pereira da Silva, Anderson César Soares Maia, Wellington Tavares da Silva e Fábio Brasil da Rocha.

“Em conformidade com o art.282 do Código do Processo Penal, a prisão cautelar se faz necessária ( 282,I) e é a única medida adequada ( 282,II) não só em razão da gravidade concreta dos delitos imputados, quanto pelas condutas dos acusados no curso das investigações, o que pode, como já fundamentado, atrapalhar o decorrer da instrução criminal”, diz a decisão.

Carro de major periciado

A viatura oficial da Polícia Militar que servia o major Edson Santos, ex-comandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, virou alvo de investigação de policiais da Divisão de Homicídios (DH). Na semana passada, o veículo, um Sandero preto, foi periciado. Agentes usaram luminol, reagente que identifica sangue, para saber se há vestígios biológicos do pedreiro Amarildo de Souza, que desapareceu na favela dia 14 de julho.

Na terça-feira, dez PMs, entre eles Santos e o tenente Luiz Felipe de Medeiros, ex-subcomandante da UPP Rocinha, foram indiciados pela Polícia Civil por tortura seguida de morte e ocultação de cadáver do pedreiro. A pena pode chegar a 30 anos de prisão. O resultado do exame no Sandero descaracterizado deve sair ainda este mês. Três moradores da Rocinha que colaboraram com as investigações foram colocados no programa de proteção à testemunha.

“Só tenho uma certeza: o Amarildo entrou na UPP da Rocinha, mas não saiu”, afirmou o promotor Homero das Neves Freitas. Além de ter imagens que mostram que Amarildo não passou pela escadaria da Dionéia, como sustentam os acusados, há depoimento de dois policiais que estavam próximos a localidade que também afirmam não ter visto Amarildo.

Perícia apontará se restos mortais achados num terreno em Resende são de Amarildo%2C que sumiu em 14 de julhoEstefan Radovicz / Agência O Dia

Homero avalia ainda se vai pedir a decretação da prisão preventiva dos policiais à Justiça por coação no curso das investigações. A polícia aguarda ainda o resultado de exame no Instituto Médico Legal (IML) de uma ossada encontrada em Resende, no Sul Fluminense, que pode ser do pedreiro.

Pedido de CPI para o caso

O deputado Geraldo Pudim (PR) entrou ontem com um pedido na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj) para a criação de Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) com o objetivo de apurar as causas do desaparecimento de Amarildo e de outros casos semelhantes no estado.

Pudim afirmou que, na próxima terça-feira, vai começar a coletar as 24 assinaturas de deputados estaduais necessárias para a criação da comissão.

“Existem muitos desaparecimentos no Rio com as mesmas características de Amarildo e a comissão pode ajudar nessas investigações”, justificou.

Polícia apura se há vestígio de Amarildo no Sandero usado por ex-comandante da UPPAlessandro Costa / Agência O Dia

O deputado também protocolou nesta quinta-feira representação contra o governador Sérgio Cabral na Organização dos Estados Americanos (OEA) por descumprir a Convenção Interamericana Sobre o Desaparecimento Forçado de Pessoas.

Capturado após dica de informante

Amarildo foi capturado pelos policiais porque um informante do soldado Douglas Roberto Vital Machado garantiu que o pedreiro sabia os locais onde traficantes de drogas da Rocinha guardavam armas, como O DIA mostrou nesta quinta-feira com exclusividade.

Vital era homem de confiança do major Edson Santos, ex-comandante da UPP. Amarildo foi abordado primeiro por Vital e três policiais. Mas recebeu apoio de outros cinco militares, além de Santos que, segundo as investigações, monitorava os passos dos subordinados. Os acusados negam participação no crime.

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