Por thiago.antunes

Rio - Uma hora. Este foi o tempo que as forças de segurança precisaram, na manhã de ontem, para ocupar 13 comunidades do Complexo do Lins, na Zona Oeste, e instalarem as 35ª e 36ª UPPs. As novas Unidades de Polícia Pacificadora funcionarão nas localidades de Cachoeira Grande e Camarista Meier.

Às 6h mais de 1,3 mil homens do Comando de Operações Especiais (COE), que reúne o Bope, o Batalhão de Choque, o Batalhão de Ações com Cães (BAC) e o Grupamento Aero Móvel (GAM), somados a fuzileiros navais, entraram nas favelas sem disparar um tiro.

“Mais um conjunto de favelas está livre do domínio de traficantes”, afirmou o porta-voz da PM, tenente-coronel Cláudio Costa. Durante todo o dia as guarnições, que já faziam incursões desde o dia 20 de setembro, fizeram varreduras na região. Balanço da Secretaria de Segurança aponta que, neste período, foram apreendidos 14 fuzis, 40 pistolas, 12 revólveres e 14 granadas.

Moradores e bebê observam%2C atentos%2C a ação de blindadosFernando Souza / Agência O Dia

Neste domingo, no entanto, o saldo foi bem menor: duas pistolas, pequena quantidade de maconha, cocaína e loló, e duas prensas de drogas, uma delas para 500 kg. Cinco pessoas foram presas e um carro recuperado. Por volta de 10 horas, ‘caveiras’ do Bope hastearam as bandeiras do Brasil e do Rio no Largo do Jacaré, no alto da Favela Cachoeira Grande. O ato, em silêncio, foi assistido por dezenas de moradores, entre eles muitas crianças. “Esperamos que nossas vidas mudem para melhor. Nunca tivemos nada. Precisamos de tudo, principalmente ordem e segurança”, disse Amanda Oliveira, 27, com o filho Fagner, de nove meses, no colo.

A movimentação das tropas nas ruas e vielas foi acompanhada atentamente por moradores das janelas de suas residências. Muitos aplaudiram e filmaram. “Isso é histórico. Estamos muitos felizes. Não aguentávamos mais conviver com bandidos sanguinários”, desabafou X., de 45 anos, morador da Favela Árvore Seca, enquanto garis da Comlurb retiravam lixo e entulho espalhados por vários pontos do complexo, e apagavam pichações.

Casal%2C tranquilo%2C nem se importa com a aproximação dos policiaisFernando Souza / Agência O Dia

O aparato usado na ocupação pelas forças de segurança chamou a atenção também. Por onde passavam, os blindados da PM e da Marinha eram fotografados. Os policiais aproveitaram para distribuir panfletos saudando a população e divulgando o telefone do Disque-Denúncia (2253-1177). A Autoestrada Grajaú-Jacarepaguá ficou interditada durante uma hora e quarenta minutos, mas não foram registrados longos engarrafamentos. Apreensões e suspeitos detidos foram para a 25ª DP (Engenho Novo).

De acordo com o Instituto Pereira Passos, 15.099 pessoas vivem no Complexo do Lins — Cachoeirinha, Cotia, Bacia, Encontro, Amor, Cachoeira Grande, Nossa Senhora da Guia, Dona Francisca/Árvore Seca, Barro Preto, Barro Vermelho, Vila Cabuçu e Santa Terezinha, além de Camarista Méier, onde vivem 4.850 pessoas.  Apesar da tranquilidade, há quem tema a ação da polícia. “Me recupero de um enfarte e um PM do Bope entrou no meu bar e me abordou com tanta violência, que passei mal”, contou a comerciante X, de 48 anos.

‘Musa do Lins’ encanta crianças e adultos

A chegada de 30 cavalos do Regimento de Polícia Montada (RPMont) fez a festa das crianças, que puderam montar nos animais. Mas quem chamou a atenção dos marmanjos foi a soldado Flávia de Faria Padilha Chellucci, de 29 anos.

“Me perguntaram porque não sou modelo em vez de PM. Expliquei que ser policial sempre foi meu sonho”, disse Flávia, há três anos na corporação, onde atua como fisioterapeuta num projeto de equinoterapia para 80 crianças e adultos com necessidades especiais.

A soldado Flávia Chellucci leva uma criança na égua Senhora%3A carisma atraiu atenção de moradoresFernando Souza / Agência O Dia

De baton vermelho, esbanjando simpatia, a ‘musa do Lins’, como passou a ser chamada, contou que fez prova para a PM escondida dos pais e da irmã mais nova, Bruna, 22. “Hoje, eles se amarram na minha profissão”, ressaltou Flávia, montada na égua Senhora, da raça lusitana.

Quem se atreveu a cantar a moça, de 1,75 metro de altura, porém, se deu mal: ela é casada com um professor de Educação Física.

‘Fuzileiros Navalhas’ estragam ponto e meio fio

A tomada do Complexo do Lins foi um passeio, mas pelo menos para um fuzileiro naval a situação ficou complicada. Uma viatura blindada do tipo Piranha colidiu e destruiu um ponto de ônibus na entrada do Morro da Cotia, na estrada Grajaú-Jacarepaguá. Com o choque, os militares tiveram que retirar o concreto de cima do veículo para sair. Um sargento do Batalhão de Choque da PM, não identificado, sofreu ferimentos leves.

Operação de ocupação usou blindados no LinsFernando Souza / Agência O Dia

De acordo com o representante do Ministério da Defesa, o comandante Viegas, da Marinha, o incidente vai ser apurado. A destruição do ponto de ônibus não foi o único incidente envolvendo blindados. Numa rua sem saída na Árvore Seca, um carros Lagarto Anfíbio (CLAnf) quase tombou ao dar marcha ré, destruindo parte do meio fio.

O piloto, apesar dos computadores de bordo, teve que pedir auxílio a um morador para manobrar e sair do local. “Meus Deus! Que barbeiragem! Esses caras são fuzileiros navais, mas bem que poderiam se chamar fuzileiros navalhas”, brincou o pedreiro Carlos Alberto da Silva, 47, morador da localidade, arrancando gargalhadas dos vizinhos.

Cabral anuncia R$ 500 milhões para o Lins e a data para ocupar a Maré

Logo após a tomada do Complexo do Lins, enquanto comemorava o sucesso da ação, o governador Sérgio Cabral anunciou que a UPP do Complexo da Maré será criada até março do ano que vem. “Vai ser no primeiro trimestre de 2014”, adiantou.

O governador destacou o caráter pacífico da ação e lembrou que a ocupação de ontem beneficiará, de forma direta, 15 mil moradores — outras 150 mil pessoas, no entorno, aproveitarão os efeitos das UPPs, além dos usuários da Grajaú-Jacarepaguá. “É mais um passo na busca da paz.”

Forças de segurança hasteiam bandeira no Complexo do LinsDivulgação

Cabral anunciou investimento de R$ 500 milhões nas 13 favelas locais, em infraestrutura e obras urbanísticas. “O comércio local ganha e o metro quadrado se valoriza”, comentou. Ainda segundo o governador, a possível ocupação do Morro da Covanca, em Jacarepaguá, Zona Oeste, para onde bandidos do Complexo do Lins teriam fugido, está dentro da perspectiva da Secretaria de Segurança Pública, assim como a ocupação de outras comunidades nas zonas Oeste, Norte e em Niterói e São Gonçalo. “É inexorável uma ação na Covanca, assim como nas que sofrem com bandidos e milícia.”

O desfecho do Caso Amarildo, em que 10 policiais foram presos, mostra a força da política de pacificação, segundo Cabral. “Esse tipo de investigação só pode acontecer quando uma comunidade está pacificada”, ressaltou. O governador anunciou ainda que até o fim do ano a Polícia Civil contará com mais 1,2 mil agentes e 150 delegados. “E já iniciamos processo de licitação para uma Divisão de Homicídios para a região de Niterói e São Gonçalo”, adiantou.

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