DH apura paradeiro de mais um morador da Rocinha

Homem teria sido detido e levado para a UPP da favela no mesmo dia em que o pedreiro Amarildo foi dado como desaparecido. Boletim de ocorrência também sumiu

Por O Dia

Rio - O paradeiro de um outro morador da Rocinha está sendo investigado pela Divisão de Homicídios (DH). Ele foi capturado por policiais e levado à sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) no dia 14 de julho, duas horas antes do pedreiro Amarildo de Souza ter sido preso, torturado e morto.

Dez policiais militares, entre eles o major Edson Santos, ex-comandante da UPP, estão presos, sob acusação dos crimes de tortura seguida de morte e ocultação do cadáver de Amarildo. Segundo as investigações da Homicídios, o outro morador desaparecido foi abordado pelo soldado Douglas Roberto Vital Machado, o Cara de Macaco, e conduzido até a localidade chamada Cachopa.

Buscas por vestígios dos restos mortais de Amarildo: agora surge a suspeita de outro sumiçoAlessandro Costa / Agência O Dia

A região foi vasculhada por agentes da DH durante a reprodução simulada do caso Amarildo. Há registro do fato no livro da UPP. Mas o documento oficial, que os policiais chamam de BOPM 0303713, que deveria estar na unidade com detalhes da ocorrência, sumiu, como informou o então subcomandante da unidade, Luiz Felipe de Medeiros. Ele e Vital estão presos pela morte de Amarildo.

Nesta terça-feira, agentes da DH cumpriram mandados de busca e apreensão expedidos pela juíza Daniella Alvarez Prado, da 35ª Vara Criminal, em casas de outros PMs, que trabalharam na Rocinha. Eles são suspeitos de terem tido acesso a informações sobre a ação dos PMs contra Amarildo e de se omitirem.

Delação premiada

Foram inspecionados ainda os armários de policiais na sede da UPP e no Centro de Comando e Controle. Os investigadores ainda apostam que policiais aceitem a delação premiada — informações em troca de redução de pena. O corpo do pedreiro foi enterrado na parte alta da Rocinha mas retirado dois dias após seu desaparecimento vir à tona. Apesar de o corpo ter sido retirado da favela, a DH vai continuar as buscas na comunidade.

O objetivo é tentar encontrar algum restos mortais. A data para as novas buscas ainda não foi marcada. Dessa vez, os agentes irão à favela com os Bombeiros e cães farejadores. Segundo informações, os animais usados nas buscas no início das investigações chegaram a latir no local onde o corpo foi enterrado. Lá, a polícia viu vestígios de terra mexida.

Documento relata que boletim da PM sobre sumiço de outro morador não foi apresentado à Polícia CivilReprodução

Personalidades fazem leilão

O cantor Caetano Veloso e sua ex-mulher Paula Lavigne entraram na campanha de solidariedade pela família de Amarildo. Eles reuniram ontem 120 convidados, que pagaram R$ 500, para o leilão de obras de arte e instrumentos, entre eles o quadro do cartunista Carlos ‘ Por uma cultura de paz’, que mostra um negro, pregado a uma cruz, fuzilado por PM. “É um ato de solidariedade à família que está passando necessidade”, afirmou o desembargador Siro Darlan, um dos convidados.

Com os recursos arrecadados, a meta é pagar uma casa de R$ 50 mil na Rocinha, já escolhida pelos parentes, e montar um centro para apoiar outras famílias de desaparecidos. “A casa é ótima. Fica próximo da minha tia e da minha avó”, comemorou Anderson, filho de Amarildo.

Coação: dois PMs são identificados

Dois PMs que ajudaram o major Edson Santos a coagir testemunha a acusar o traficantes pela morte de Amarildo foram identificados pela polícia. Um deles, o soldado Newland, foi o responsável por fazer a mudança da testemunha da Rocinha para uma favela da Zona Oeste. O militar usou o próprio carro para levá-la à casa que teria sido alugada pelo major Edson Santos.

Porém, a testemunha voltou atrás e revelou os planos dos policiais. Newland e outro PM identificado como Lacerda foram à procura da testemunha no trabalho dela, em shopping da Zona Oeste. Em função disso, ela foi colocada no Programa de Proteção, fora do estado.

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