Polícia usará nova lei para enquadrar grupos radicais

Manifestantes investigados por quebra-quebra serão indiciados por lei sancionada em agosto por Dilma, e que prevê até oito anos de prisão para organizações criminosas

Por O Dia

Rio - A Polícia Civil vai enquadrar como organização criminosa grupos investigados por envolvimento em quabra-quebra nas manifestações. A medida será baseada na Lei de Organização Criminosa, sancionada pela presidenta Dilma Rousseff em agosto e em vigor desde setembro. “Quando houver reunião de quatro ou mais indivíduos formal ou informalmente, através de qualquer meio para a prática criminosa, serão autuados como organização criminosa, podendo pegar até oito anos de cadeia”, informou a instituição em nota.

Ataques a ônibus, ações coordenadas simultâneas nas avenidas Presidente Vargas e Rio Branco, Cinelândia e Lapa, além da pichação da sigla de uma facção criminosa nas paredes de bancos e lojas quebrados levantam suspeitas da atuação de grupos mais organizados terça-feira, após a ato dos professores no Centro do Rio. “Foi diferente das outras manifestações. Desta vez, houve ações dispersas. Quando soube do ataque à Câmara, às 19h35, pedi reforço no policiamento”, afirmou o presidente da Casa, Jorge Felippe (PMDB).

Destruição chamou a atenção de quem chegou ao Centro do Rio na manhã de terçaCarlo Moraes / Agência O Dia

A Polícia Civil investiga se houve participação de bandidos, como ocorreu na manifestação em que uma cabine policial foi queimada na Presidente Vargas, no dia 21 de junho. O promotor Paulo Roberto Melo Cunha criticou a demora nos resultados das investigações do órgão. “Investigam ou não? Ainda não vi resultado”, afirmou.

A Polícia Militar informou que quando “criminosos” iniciaram a depredação, agiu com seus recursos e que, dos 18 suspeitos, havia um homem com quatro TVs de LCD furtadas. Ele foi autuado em flagrante na 5ª DP (Mem de Sá) por receptação.

Embora condenem a violência, dirigentes do Sindicato dos Professores (Sepe) estão divididos sobre a participação de grupos radicais, como o Black Bloc, após o ato pacífico. A coordenadora Ivonete Conceição da Silva avalia que o grupo age com agressividade em resposta ao descaso do governo. “Ataque à Câmara e aos ônibus é um grito de basta da população”, disse. A também coordenadora Marta Moraes repudia ato de violência. “Defendemos a palavra, não atos de violência.”

Após protesto%2C cidade tem rastro de destruiçãoFoto%3A Carlos Moraes / Agência O Dia

Na Rio Branco, 23 bancos foram depredados. Garis removiam pichações na Câmara. Lojas foram destruídas. Dono de uma banca na Cinelândia, Rafaeli Basili, 67 anos, diz nunca ter visto nada igual. “O ônibus que pegou fogo ficou aqui do lado, queimou um pouco a banca, que teve partes quebradas. Meu prejuízo é deR$ 1.100. O que eu, trabalhador honesto, tenho com isso?”, questionou.

'Ação dos Black blocs vai endurecer ’

A atuação dos black blocs nos protestos de segunda-feira foi mais violenta e tende a se intensificar, na avaliação de Rafael Alcadipani, professor da Fundação Getúlio Vargas (FGV) que conduz pesquisa sobre as manifestações que tomaram as ruas do país este ano. Alcadipani atribui o endurecimento a uma resposta à atuação da força policial. “Se você analisar, os black blocs estavam meio fora das ruas do Rio, mas voltaram depois da violência da PM contra os professores. A convocação para os protestos foi para defender os professores”, alega.

Segundo ele, o grupo está indo mais armado para o conflito, com coquetel molotov, marreta etc. “Essa tendência do black bloc de sair para a violência simbólica, atacar símbolos do capitalismo, já se demonstrava no 7 de setembro”, analisa.

Após protesto%2C cidade tem rastro de destruiçãoFoto%3A Carlos Moraes / Agência O Dia

Carroceiro lucra com venda a ferros-velhos

Em meio ao caos, uma pessoa comemorou. Com a carroça lotada de ferro e outros materiais recicláveis, Luiz Afonso Leal, 56 anos, disse: “Fica em minha casa o fim dos protestos. Hoje tem uns 300 quilos, vai render R$ 50 no ferro-velho”, disse ele, que criticou o quebra-quebra.

Na manhã desta terça-feira, o governador Sérgio Cabral elogiou a atuação da polícia. “A PM se posicionou de forma correta. Só começou a agir quando a passeata, legítima, acabou e os vândalos iniciaram a depredação”, disse. Radicais destruíram o acesso ao elevador para deficientes, na Estação do Metrô, na Cinelândia. A concessionária garantiu que nesta quarta-feira o serviço estará normalizado.

Ataques retiram de operação 28 ônibus

A ação de vândalos na segunda-feira retirou de circulação 28 ônibus municipais ontem. Vinte e dois deles tiveram janelas e para-brisas quebrados. Veículo da Viação Ideal foi completamente destruído pelo fogo na Rua Santa Luzia. O prejuízo neste caso chega a R$ 350 mil.

Em outro momento, radicais tentaram atear fogo num coletivo da Viação Rubanil, e, durante o quebra-quebra, bandidos roubaram o dinheiro que estava com cobrador de um ônibus da Viação Verdun. Três consórcios que operam na capital (Internorte, Intersul e Transcarioca) foram atingidos pelas depredações.

Em nota, o sindicato das empresas, Rio Ônibus, repudiou os ataques. “O vandalismo afasta a sociedade das reivindicações por educação, saúde e transporte de qualidade”.

Dia de perícia e limpeza

No dia seguinte aos atos de vandalismo, o saguão da Câmara de Vereadores, na Cinelândia, parecia cenário de guerra. O local ficou fechado para perícia e limpeza. Na entrada lateral, na Rua Evaristo da Veiga, funcionários recolheram centenas de pedras portuguesas e bolas de gudes, usadas como munição nos estilingues dos manifestantes.

O presidente da Casa, vereador Jorge Felippe (PMDB), disse que o Palácio Pedro Ernesto foi atacado por cerca de 400 radicais que tentaram incendiar a sala do cerimonial e o gabinete da Coordenadoria Militar de Segurança.

Jorge Felippe não atribui os ataques aos professores. O parlamentar diz que os Black Blocs realizaram ações dispersas e simultâneas em diversos pontos, como na Avenida Rio Branco e Presidente Vargas: “Isso desarticulou um pouco o controle da PM”, diz.

Após protesto%2C cidade tem rastro de destruiçãoCarlos Moraes / Agência O Dia

Professor vai depor até sexta

O professor de História Rodrigo Bezerra é investigado pela Polícia Civil por divulgar, via redes sociais, a falsa notícia da morte de uma docente por inalação de gás lacrimogêneo que teria sido disparado pela PM, em protesto na semana passada. Ele será ouvido na 4ª DP (Central).

“Espalhar um boato não é crime”, disse Breno Melagrano, presidente da Comissão de Segurança Pública da OAB-RJ. Para ele, trata-se de uma ‘atitude antiética, mas não é um delito’. A prefeitura classificou o episódio como ‘perturbação da ordem pública’.

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