Por cadu.bruno

Rio - Um vídeo feito por equipe do movimento intitulado ‘Das Lutas’, durante protesto da última terça-feira, registrou o momento em que um policial militar fardado atira duas vezes, com uma suposta arma de fogo, em direção a um grupo de manifestantes na terça-feira.

Em seguida, policiais correm para trás de uma cabine da PM, e os manifestantes, revoltados, partem em direção ao carro do policial, tentando virá-lo.


Procurada pelo DIA, a assessoria de imprensa da corporação afirmou que ‘a Corregedoria da Polícia Militar determinou a abertura de uma sindicância para avaliar a conduta do policial’. E acrescentou que ‘ele será afastado do policiamento nas próximas manifestações’.

Corregedoria da PM esteve em hospital onde jovem está internado

Médicos e parentes de Rodrigo Gonçalves Azoubel, de 18 anos, disseram que corregedores da Polícia Militar estiveram duas vezes na Clínica São Vicente, na Gávea, logo após a chegada do estudante e durante a madrugada desta quarta na tentativa de encontrar fragmentos de balas que pudessem estar alojadas em um dos braços da vítima. A Corregedoria confirmou que esteve no local para este fim.

“É uma atitude lamentável e reprovável da Polícia Militar porque o recolhimento dos projéteis dificultaria as investigações. E não é papel da Corregedoria vir ao hospital antes da Polícia Civil, muito menos dificultar investigação. Esta atitude só traz mais suspeita sobre a atuação da PM”, acusou o advogado Marcelo Chalreo.

Rapaz ferido é atendido no meioda rua durante a manifestação de terça-feiraErnesto Carriço / Agência O Dia

Os médicos da clínica informaram ao advogado e também ao delegado Orlando Zaccone que os tiros devem ter sido disparados a uma pequena distância de onde estava Rodrigo.

“Havia vestígios de pólvora junto aos ferimentos, o que é indicativo de tiro à curta distância. E recebemos denúncias de vários projéteis recolhidos nas imediações da Cinelândia o que, a princípio, deve ser creditado às forças de segurança, já que nunca houve registro de manifestantes portando armas de fogo”, explicou Chalreo.

O advogado disse ainda que vai coletar o maior número de informações possíveis para, a partir de então, tomar as providências que forem cabíveis.

Primeira vítima de arma de fogo em manifestações

Os confrontos entre manifestantes e policiais fizeram, na noite de terça-feira, a primeira vítima por disparo de arma de fogo. O estudante Rodrigo Azoubel, 18, sofreu fratura nos dois antebraços, mas ainda não se sabe se causado por um ou dois tiros. Onze feridos no protesto foram para o Hospital Souza Aguiar por quedas e inalação de gás.

Flagrante mostra Rodrigo Azoubel sendo socorrido no Centro pouco depois de ser baleadoErnesto Carriço / Agência O Dia

Internado na Clínica São Vicente, na Gávea, onde foi submetido a duas cirurgias, Rodrigo contou ao delegado Orlando Zaccone, da 15º DP (Gávea), que participava da manifestação na Cinelândia quando foi atingido, por volta das 20h30. “Ele não sabe dizer de onde partiu o disparo. Felizmente, havia estudantes de medicina voluntários que salvaram sua vida. Ele poderia ter morrido por hemorragia”, disse o delegado. Zaccone começou a investigar o caso, que agora está na 5ª DP (Lapa).

Filho do professor Beto Azoubel, assessor técnico do Ministério da Cultura, e Flávia Lacerda, diretora da Rede Globo, Rodrigo vai ficar internado por pelo menos mais uma semana, quando será submetido a novas cirurgias para fixação da fratura.

No seu perfil no Facebook, tirado do ar à tarde, Rodrigo postou vários depoimentos e imagens nos últimos meses sobre os conflitos, incluindo a reprodução de reportagem em que aparece em foto vestido de preto em frente à Assembleia Legislativa. Na Copa das Confederações, em junho, quando em uma das manifestações os policiais foram recebidos com flores, Rodrigo escreveu “Sem entregar flores pra polícia pelo amor de Deus! Muito menos proteger patrimônio público”.

No mês seguinte, Rodrigo defendeu que os protestos continuassem até que fosse revelado o paradeiro de Amarildo: “Que o caos reine na cidade do Rio de Janeiro enquanto ninguém se pronunciar sobre o paradeiro do senhor Amarildo”, escreveu.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos da OAB, Marcelo Chalreo, que foi à clínica ouvir os relatos de Rodrigo, deixou a Gávea indignado e repudiou firmemente a postura da PM. “Precisa ficar claro que quem participa de manifestação não pode ser tratado à bala. Se cometeu excesso, tem que ser punido pelos excesso”, disse.

Os pais de Rodrigo ficaram muito assustados com o estado do filho e preferiram não dar entrevistas. “Estou exausto com tudo o que aconteceu, triste e não gostaria de tocar no assunto”, limitou-se a dizer Azoubel, que fez doutorado em Literatura na PUC e mora no Recife. Já Flávia falou apenas que o filho está bem e confirmou que ele participa das manifestações. Amigos de Rodrigo disseram que ele tem espírito rebelde, mas é um garoto doce e de bom coração.

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