Por tamyres.matos

Rio - A morte suspeita de um jovem de 18 anos numa área com Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) provocou protesto violento, ontem, em Manguinhos, que terminou com adolescente de 17 anos baleada. Moradores da favela acusam policiais da UPP de terem torturado até a morte Paulo Roberto Menezes, de 18 anos, no Beco da Esperança.

A PM nega ter usado violência na abordagem e diz que o rapaz sofreu mal súbito. Após a morte ter sido confirmada, centenas de pessoas fecharam por alguns minutos a Avenida Leopoldo Bulhões, onde atiraram pedras em policiais, que revidaram dando tiros para o alto. Logo depois, Juliane Karoline dos Santos, de 17, apareceu ferida a tiro na perna.

“Meu filho tinha nove passagens pela polícia (sete quando menor de idade) e era visado pelos homens da UPP, mas nunca teve envolvimento direto com o tráfico de drogas. Sempre recebia ameaças e respondia às provocações. Ele foi assassinado covardemente por nunca ter escondido quem era”, disse a comerciante Fátima Pinho Menezes, mãe de Paulo. Ela ainda contou que um policial da UPP teria passado a perseguir o rapaz após flagrar Paulo cometendo um assalto a mão armada na Lapa.

Paulo Menezes mostra local onde o filho teria sido torturado e morto. PM diz que vítima teve mal súbitoEstefan Radovicz / Agência O Dia

Agentes da 21ª DP (Bonsucesso) realizaram perícia no Beco da Esperança e recolheram material genético para apurar se as marcas de sangue encontradas em um muro do local eram do jovem. Laudo preliminar do Instituto Médico-Legal (IML) apontou que os ferimentos no corpo não foram a causa do óbito, que deve ser constatado pelo resultado da necrópsia.

Seis policiais militares que estavam de plantão na comunidade durante a madrugada — quando Paulo morreu — já foram ouvidos. Se comprovadas as agressões, eles podem ser indiciados por lesão corporal seguida de morte. Familiares e amigos da vítima também prestaram depoimentos.

Em nota, a Polícia Militar afirmou que o jovem estava em companhia de três amigos quando foi abordado por policiais que realizavam patrulhamento na região e consideraram a atitude do grupo suspeita. Ao notar a aproximação dos PMs, Paulo Roberto teria fugido e caído. Segundo a Secretaria Municipal de Saúde, ele já teria chegado morto à UPA de Manguinhos.

Adolescente é atendida no Salgado Filho

Durante o protesto pela morte do jovem de 18 anos na Avenida Leopoldo Bulhões e em alguns acessos à Favela de Manguinhos, Juliane Karoline dos Santos, de 17, foi atingida na perna por disparo de arma de fogo, em local próximo de onde Paulo Roberto foi visto pela última vez com vida.

Jovem morreu em Manguinhos na madrugada de quinta. Família acusa PMsEstefan Radovicz / Agência O Dia

Ela foi levada para o Hospital Salgado Filho, no Méier, onde recebeu atendimento. De acordo com a Secretaria Municipal de Saúde, a jovem já teve alta. “Essa é a prova de que eles atiram a esmo em locais onde há concentração de menores. Será que alguém ainda duvida de culpa na morte do meu filho?”, questionou a mãe de Paulo Roberto, Fátima Menezes. O corpo do rapaz será sepultado hoje, às 16h, no Cemitério de Inhaúma.

Fogo em pneus, bomba de efeito moral e tiros para o alto

A revolta foi a marca do protesto em Manguinhos, entre a manhã e a tarde de ontem. Pneus foram incendiados por moradores, e o trânsito da Avenida Leopoldo Bulhões, interrompido pelos manifestantes. Em resposta às pedras lançadas em direção a viaturas e às bases da UPP e da UPA de Manguinhos, militares jogaram bombas de efeito moral e jatos de spray de pimenta, e deram tiros de arma de fogo para o alto. Na confusão, crianças corriam com medo do barulho das bombas e dos tiros.

“Nós temos que chamar atenção para o nosso sofrimento. Vivemos com medo desses policiais autoritários”, disse um morador, que pediu para não ser identificado. Um procedimento foi aberto pela 8ª Delegacia de Polícia Judiciária Militar (DPJM) para apurar o uso de armas de fogo por policiais, que encontram-se à disposição para perícia.

A Coordenadoria de Polícia Pacificadora disse ter ajudado a socorrer a menor baleada. No fim da tarde, representantes da Fiocruz, vizinha à comunidade, foram lá prestar solidariedade a moradores. O presidente da instituição, Paulo Gadelha, ligou para o governador Sérgio Cabral, para mediar o diálogo entre moradores e o governo estadual.

Reportagem: Gabriel Sabóia

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