Por bferreira

Rio - ‘Quando cai a noite, vem a agonia. Nunca sabemos a que momento virão os protestos ou de quem partirá a violência. Tenho medo de vir trabalhar na Câmara dos Vereadores, mas não tenho alternativa. Desde que começaram as manifestações, em junho, o ambiente mudou. Está pesado”, confessa o segurança da Casa Legislativa Aílton Carvalho. O senhor de 61 anos, 37 deles na Câmara Municipal, se diz apartidário e garante nunca ter vivido momentos de tensão semelhantes aos presenciados desde que a Cinelândia voltou a ser palco de alguns dos mais representativos (e por vezes conflituosos) protestos.

Cadeados foram colocados na porta da Câmara de Vereadores para impedir a entrada de manifestantes que há dois meses ocupam a escadariaAndré Luiz Mello / Agência O Dia

Ele é um dos muitos que, em meio ao fogo cruzado de acusações entre manifestantes e policiais pelo início dos conflitos e ações de vandalismo, sofrem os reflexos por trabalhar no prédio histórico, que ganhou tapumes e grades como adorno, nos últimos tempos. “O ambiente ficou fúnebre e falta ventilação. Contudo, o que mais nos prejudica é a incerteza quanto às votações. Já trabalhamos ao som do barulho de bombas e aspiramos gás lacrimogêneo. Não tem sido uma rotina fácil”, relata o assessor de plenário Rodrigo Torres.

O clima de medo, de fato, tem marcado a vida dos funcionários do Palácio Tiradentes. Questionados pela reportagem, muitos se recusaram a dar depoimentos por medo de ficar ‘visados’ por grupos extremistas.

Entre legisladores, grupo que é alvo dos atos de hostilidade, os lamentos são outros. O vereador César Maia (DEM) diz que sente o fato de a Câmara estar sendo prejudicada pelo horário reduzido. “O plenário não está funcionando normalmente, de 14h às 18h, como antes. Isso seria a normalidade, com ou sem tapumes”, opina. O vereador Eliomar Coelho (Psol), por sua vez, não se conforma com a falta de diálogo entre as partes: “A barreira física dos tapumes é pequena, se comparada à criada para que ambos cheguem a um consenso”, diz, lembrando que o local é o mais emblemático centro de reivindicações da cidade.

Apreensão atinge famílias

O clima de insegurança que assola a Câmara em dias de protestos não afeta apenas funcionários do local. Familiares também são vítimas da incerteza de paz e sofrem ao assistir às imagens dos conflitos.

“Minha mãe liga todos os dias para saber se há algum ato agendado”, conta a secretária Regina Ramos.

No protesto do último dia 15, o ônibus atrasou, e ela demorou a chegar em casa. “Minha mãe, que é cardíaca, estava passando mal, imaginando que poderia estar no meio da confusão”, disse Regina. “Isso destrói qualquer um. Eu e outros colegas, que vivemos esse drama, temos nossos rendimentos individuais prejudicados”.

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