Por bferreira

Rio - Vistoria em tempo recorde. A investigação do maior esquema de fraude de documentação de veículos no Detran, desarticulado sexta-feira, revelou que carros, e até caminhões, legalizados irregularmente pela quadrilha em postos do órgão, eram vistoriados em apenas dois minutos.

A Operação Cruzamento foi desencadeada pela Corregedoria do Detran%2C MP e Polícia Civil%2C sexta-feira%3A na ocasião 88 suspeitos%2C acabaram presosCarlos Moraes / Agência O Dia

Denúncia do Ministério Público (MP), a que O DIA teve acesso com exclusividade, mostra que o intervalo entre o horário da suposta entrada dos veículos na unidade e da conclusão do procedimento era, em média, de dois minutos. A rapidez no serviço era possível porque os carros passavam pela ‘vistoria-fantasma’, ou seja, tinham apenas os dados inseridos no sistema pelos fraudadores sem que fossem levados aos postos.

Só no posto de Nova Iguaçu, em 19 de julho do ano passado, a investigação apontou que o licenciador de vistoria da unidade José Orlando Cerqueira da Silva aprovou a vistoria de vários veículos na modalidade ‘fantasma’. Ele foi denunciado pelo MP.

Segundo a denúncia, sete caminhões foram aprovados na vistoria por ele em apenas 15 minutos. Em outro momento, José Orlando também aprova o procedimento em dois caminhões, uma caminhonete e um minibus em nove minutos; e quatro caminhões em seis minutos.“Fatos que são física e tecnicamente impossíveis de ocorrer em razão da complexidade da vistoria de tais veículos”, diz a denúncia.

Para legalizar os veículos, o grupo exigia propina de R$ 50 a R$ 1 mil. A fraude rendia à quadrilha R$ 2 milhões por mês. Foram identificados, 700 veículos e 181 pessoas — 136 eram ou são funcionários —, além de três PMs e ‘zangões’ (despachantes ilegais), que foram denunciados à Justiça. Onze donos de veículos que pagaram para ter o carro legalizado vão responder por corrupção ativa e podem pegar de 2 a 12 anos de prisão. Sexta-feira, 88 das 112 pessoas que tiveram a prisão decretada foram presas.

‘Seis meses para enriquecer’

De acordo com a denúncia, Cris da Silva Lima, certificadora do posto de vistoria da Barra, ‘participa ativamente de vários serviços irregulares, tendo papel de destaque na associação criminosa’. Ela agia com o ‘zangão’ Bruno Monteiro. Ambos foram denunciados pelo MP.

Em escutas autorizadas pela Justiça, Cris avisa a Bruno que se um homem, identificado por ela como Stefanno, voltar ao posto, todos terão seis meses para enriquecer (com as propinas). E vai além: diz que depois disso eles deveriam provocar a demissão para não serem presos.

Em outro diálogo, eles falam sobre a queima de processos para escapar da Corregedoria do Detran e chamam a ação de ‘fogueira santa’. Bruno revela que já queimou mais de 500 processos.

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