Por thiago.antunes
'Ele era apaixonado pelo que fazia'%2C disse pai do sargento OliveiraReprodução

Rio - Cerca de 200 pessoas, entre familiares, amigos e colegas de farda compareceram ao enterro do sargento Alexandre Rodrigues de Oliveira, 42 anos, no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, Zona Oeste do Rio, na tarde desta sexta-feira. Alexandre foi baleado durante invasão de bandidos ao fórum de Bangu, na tarde desta quinta-feira. Os criminosos tentaram resgatar dois dos 23 presos que participavam de audiência no local. O PM percebeu a movimentação do bando e correu para avisar os seguranças do local, pouco antes do tiroteio começar. Alexandre foi atingido no peito e não resistiu aos ferimentos.

O pai da vítima, Antônio Generoso de Oliveira, 71 anos, disse que o filho amava a profissão. "Morreu cumprindo o dever dele, do qual era apaixonado. Ele fazia tudo com muito carinho e desde pequeno queria ser PM. Era meu amigo, meu filho parceiro, muito gente boa. Todos gostavam dele. Machuca muito. A gente até fala e tenta passar alegria, mas no fundo só Deus sabe o que estamos sentindo", desabafou.  

Alexandre era o filho do meio da família e, antes de entrar na Polícia Militar, foi da Guarda Municipal. Segundo os parentes, ele estava há cerca de 10 anos na PM e trabalhava no fórum de Bangu há pouco mais de um ano. "Ele achava o trabalho no fórum mais tranquilo que na rua", disse Antônio.

'Nasci de novo', diz funcionário de estacionamento levado por bandidos em Bangu

O funcionário de um estacionamento que foi levado por criminosos que tentaram invadir o fórum de Bangu, na Zona Oeste, nesta quinta-feira, revelou momentos de tensão na mão dos bandidos. A ação ousada terminou com uma criança de oito anos e um PM mortos.

A vítima foi levada após o grupo invadir o estacionamento na Rua Jacinto Alcides e render outro funcionário e uma cliente. De acordo com o homem, que não quis se identificar, a ação foi rápida. "Ouvi muitos tiros e poucos minutos depois eles estavam aqui dentro rendendo a gente". Ele, que estava com três chaves na mão quando os criminosos chegaram, levou uma gravata de um deles e entrou no primeiro carro que viu, um Citroen C4.

Marcas de tiro no local onde ocorreu a tentativa de invasão dos criminososCarlos Moraes / Agência O Dia

O silêncio durante a fuga dos bandidos fez ele pensar no pior. "Você pensa que vai morrer a todo instante. Na hora não tive reação, peguei uma das chaves e abri o carro. Praticamente nasci de novo", disse. Tempo depois, um alívio. "Coroa, não se preocupa que a gente não vai matar você", disse um deles. Os criminosos passaram com o sequestrado pela Favela Vila Vintém, em Realengo, antes de abandoná-lo próximo ao Hotel New Star, em Realengo. Num dos poucos diálogos entre eles, um teria falado pertencer a comunidade Guacha, de Belford Roxo, na Baixada.

Recompensa de R%24 2 mil é oferecida pela captura do suspeitoDivulgação

Antes de rendê-lo, os criminosos passaram por outro estacionamento, também na Rua Jacinto Alcides, paralela à rua do fórum. "Na hora, percebi que eles não eram policiais porque ouvi os tiros. Fechei rapidamente o portão e entrei correndo. Por sorte eles não me pegaram", relatou o empregado de um outro estabelecimento.

De acordo com o delegado da Divisão de Homicídios (DH), Rivaldo Barbosa, cerca de 10 homens participaram da ação no fórum. Três entraram no local e foram flagrados no circuito interno. Apenas Leandro Nunes Botelho, chefe do tráfico do Morro dos Macacos, em Vila Isabel, mais conhecido como Scooby, foi identificado. Ele é apontado como a pessoa que orquestrou a tentativa de invasão. Além dos três, um homem ficou na porta do fórum e outros fizeram a escolta do grupo no quarteirão.

Quem passou pelos criminosos pelas ruas do bairro, disse que todos estavam encapuzados, de roupas pretas e aparentavam tranquilidade. "Muitas pessoas que estavam nas ruas confundiram eles com policiais, porque eles andaram normalmente e sem ameaçar as pessoas. Quem passava por eles não se espantava", disse um morador. Segundo Rivaldo, nem todos estavam de preto e capuz.

Comoção em sepultamento de criança de 8 anos

Por volta das 11h desta sexta-feira, o corpo do menino Kayo da Silva Costa, de 8 anos, foi sepultado no Cemitério do Murundu, em Realengo, Zona Oeste do Rio. Familiares e amigos inconformados com a perda do pequeno jogador de futsal prestaram homenagens à vítima. A criança foi baleada na cabeça durante troca de tiros entre policiais militares e criminosos em frente ao Fórum de Bangu. O menino seguia para a escolinha de futsal na região, mas foi interrompido no meio do caminho.

Muito abalado, o avô Juamir disse que prefere não acreditar que o batalhão da área não tenha sido avisado de que havia criminosos de alta periculosidade no fórum. A informação ainda não foi confirmada, mas muitos moradores afirmam que não havia policiamento ostensivo no entorno. "Interromperam o sonho do meu neto. Ele sonhava em ser jogador profissional do Vasco. Íamos dar um churrasco nesse fim de semana, porque sabíamos que ele seria campeão no torneio que ele participaria no próximo sábado", contou.

Centenas de pessoas acompanharam enterro no Cemitério do MurunduAlessandro Costa / Agência O Dia

O treinador de Kayo, Luiz Manuel, afirmou que a vítima "era um menino alegre e aplicado aos treinos". Ele acrescentou que o garoto sonhava ser jogador profissional do Vasco. Ainda de acordo com o treinador da categoria sub 9, da qual a criança fazia parte, todos os integrantes do grupo estavam treinando quando receberam a notícia do falecimento do amigo. As crianças ficaram inconsoláveis.

Após o enterro, moradores fazem uma passeata na região. “Queremos proteção do Estado, porque temos um fórum que recebe criminosos todo dia”, cobrou o morador Carlos Oliveira.

Crítica à Secretaria de Segurança

Durante o velório, a tia de Kayo, que trabalha como balconista próximo onde ocorreu o tiroteio, criticou a falta de bom senso da Secretaria de Segurança. "Com tempo de tanta tecnologia e videoconferências, para quê levar um criminoso para o fórum?", questionou muito abalada.

Os familiares do menino chegaram no fim da noite de quinta-feira no Instituto Médico Legal, na Leopoldina, ainda em estado de choque. O avô da criança, Joanir Faria do Rosário, de 42 anos, foi o único que conseguiu falar com os jornalistas.

"Foi uma tragédia. A ficha ainda não caiu para ninguém. O sonho dele era jogar no Vasco e ganhar uma chuteira nova de Natal. A gente ia comprar a chuteira dele amanhã, de surpresa, para o jogo dele no fim de semana", contou Juamir.

Amigos postaram homenagens ao beque parado. Um deles foi o treinador Sérgio Kazú Bangu, que mostrou foto do menino com tarja de luto no Facebook. A postagem recebeu mais de 600 comentários e foi compartilhada por mais de mil internautas em pouco mais de uma hora.

Edição: Thiago Antunes

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