Rio - Os bailes funk estão bombando nas noites de sexta-feira no Vidigal. Mas não é na simpática e pacificada comunidade da Zona Sul do Rio. O nome da favela batiza um dos estabelecimentos noturnos mais luxuosos e frequentados por jovens de classe alta de Porto Alegre.
O que atrai as cerca de 600 pessoas que lotam a casa desde maio, além do estilo musical carioca, é a decoração, que reproduz fielmente, através de imagens e painéis em alto relevo, cenários como barracos e vielas. A ideia gera polêmica. Há quem ache que o ambiente retratado na danceteria ajuda a aumentar o preconceito em relação às comunidades.
Sócio da boate, o empresário Diego Vinhas disse que sabia que a iniciativa iria gerar controvérsia. “Mas já estávamos preparados para isso. Vira e mexe nos questionam sobre o assunto. Alguns acham que estamos menosprezando a favela e os moradores.
Na verdade, é justamente o contrário. Estamos é exaltando um dos morros mais musicais do Rio, seu povo e seus artistas”, garante Vinhas, ressaltando que a ideia surgiu depois de uma pesquisa encomendada por sua rede de boates, que ainda tem outras três discotecas em Porto Alegre.
“Notamos que toda festa com temática carioca fazia enorme sucesso, principalmente através dos artistas e DJ’s. Os universitários daqui vão à loucura quando tocamos funk. A criação de uma favela estilizada ajudou a atrair mais jovens, que se encantam pelo novo, por experiências que fogem à rotina deles”, argumenta Vinhas.
Com iluminação cheia de efeitos especiais, o ambiente de favela frequentado pelos abastados de Porto Alegre exibido na Vidigal é formado por painéis que retratam também pipas, becos e casebres. Na pista de dança, calcinhas coloridas estão penduradas em diversos varais.
Ao som dos hits do funk carioca do momento, como os da MC Anitta ou do cantor Naldo, os grupos de jovens porto-alegrenses se divertem nos camarotes, onde costumam torrar até mais de R$ 4 mil em vodca, champanhe, uísque e energético.
“O clima de bom astral de comunidade é muito legal. Como nunca fui em favela, aqui (na Vidigal) tenho a impressão que estou dentro de uma”, postou um estudante de Medicina, 21 anos, que pediu para não publicar seu nome, pois teme que os pais, empresários do setor de calçados, o repreendam. “Se souberem que venho a bailes funk e em um ambiente que nos remete a uma favela, sei que não vão gostar, infelizmente.”
Entre a realidade e o estereótipo
A iniciativa da Boate Vidigal divide opiniões. O coordenador do Observatório de Favelas e doutor em Sociologia, Jailson Silva, vê com cautela a homenagem. “Esse visual (de botecos e calcinhas em varais) evidencia uma impressão estereotipada das favelas. E todo estereótipo tende a exalar preconceito”, advertiu, em recente entrevista.
Já Dário Souza , especialista em Sociologia Urbana da Uerj, diz não ver nada de negativo. “Pelo contrário. Acho que é uma forma de humanizar a favela. O cenário não esconde nada do que realmente existe nas comunidades.”