Três novas vidas fazem casal vítima de tragédia renascer

Marcelo e Claudia, que perderam as duas filhas na enxurrada de Angra, em 2010, alegram-se com a chegada de trigêmeos

Por O Dia

Rio - Quando estava soterrado com a mulher, Claudia, e as duas filhas, sob toneladas de terra em uma chuva torrencial que deixou 53 mortos em Angra dos Reis, no Réveillon de 2010, Marcelo Repetto chegou a acreditar que nunca mais veria a luz. Resgatados pelos bombeiros, a dor só aumentou para ele e a mulher quando descobriram que entre as vítimas estavam as filhas Geovana, de 12 anos, e Gabriela, de 9. Na última sexta-feira, o sol voltou a brilhar na vida de Marcelo e Claudia, que moram no Rio, com o nascimento dos trigêmeos Felipe, Flora e Valentina.

“É uma prova de amor. Não nossa, que muitas vezes pensamos estar no comando de nossas vidas, mas de Deus. Minhas filhas viveram o tempo delas e foi maravilhoso. Agora, como sou Flamengo, sou novamente hexacampeão pois tenho o amor da Claudia, da Geovana, da Gabriela, de Felipe, Valentina e Flora”, contou, emocionado, o pai, que ontem levou a esposa para casa. Nascidos de sete meses, os bebês ainda ficarão de 45 a 60 dias em incubadora.

Felipe%2C Flora e Valentina nasceram prematuros e precisarão ficar um tempo na incubadora%2C mas passam bemÁlbum de família

Com 46 anos, Claudia Repetto engravidou naturalmente após a perda das filhas, mas teve um aborto espontâneo aos três meses. A gravidez que gerou os trigêmeos foi assistida e a fertilização ‘in vitro’ deu resultado. “Novamente aos três meses, tive sangramento e fomos para a clínica. Lá constatou-se que estava tudo bem e descobrimos três coraçãozinhos batendo. Foi inesquecível”, relembrou Claudia.

Segundo ela, o que deu força ao casal para recomeçar foi o amor e a solidariedade que receberam na época da tragédia. “Foi muita gente do nosso lado, nos amparando, e isso nos mostrou que temos que valorizar aqueles que amamos e acreditar na força da vontade de Deus, pois ela está acima da compreensão dos homens”, contou Claudia, que está retirando leite para alimentar os pequenos. Os bebês também estão livres de respiradores.

Em 2010, além do casal com as filhas, outros dois parentes de Claudia e Marcelo estavam hospedados na casa alugada para o fim de ano. A enxurrada fez deslizar uma barreira que matou todos, menos o casal.

‘Precisei passar por isso para ser melhor’

Claudia Repetto sempre foi uma mulher de fé, segundo o marido Marcelo. Ele, entretanto, teve a vida modificada pela perda das duas filhas em 2010.

“Passei a dar valor a outras coisas nessa vida, me espiritualizei e acredito que vou reencontrar Geovana e Gabriela um dia. Minha mulher sempre teve essa percepção, mas eu precisei passar por esse processo para me tornar uma pessoa melhor”, explica Marcelo.

Claudia com as filhas Geovana, de 12 anos, e Gabriela, de 9, mortas na tragédiaÁlbum de família

Segundo ele, as filhas gostariam de vê-los felizes e é isso que eles querem com Felipe, Flora e Valentina: “Se eu tivesse morrido no lugar delas, gostaria que tivessem uma vida feliz”.

Até médico se emocionou

Especialista em Reprodução Humana há 15 anos, o médico João Ricardo Auler, que tratou do casal, ficou emocionado com a história de Claudia e Marcelo.

“O desejo de engravidar é de muitas mulheres e cada uma tem sua história, mas o caso deles é realmente tocante, pois foram capazes de virar o jogo em três anos. Sou pai também e fico comovido”, detalhou o ginecologista e obstetra.

Para o especialista, que chegou ao casal porque a menina Geovana estudara com um parente dele, Marcelo e Claudia são exemplos de superação.

“São duas pessoas capazes de mostrar ao mundo o poder do ser humano de reação frente a uma tragédia que causa uma dor inalcançável de imaginar. Nunca é tarde para recomeçar uma nova vida”.

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