Por adriano.araujo
Publicado 07/12/2013 20:19 | Atualizado 07/12/2013 20:23

Rio - A vida social do Século 18 no Rio não tinha nada de pacata. Pelo porto, chegavam mercadorias que abasteciam a Colônia. Por baixo dos panos, bem longe dos olhos dos fiscais da Alfândega, marinheiros contrabandeavam gravuras, livros pornográficos e até saquinhos de peles finas — os antigos preservativos.

As estripulias sexuais não poupavam nem os religiosos. Conta-se que, naquela época, o mulatinho Miguel era ‘amásio’ (amante) de muitos jesuítas. Religiosos da Companhia de Jesus chegaram a brigar pelos mulatos Lourenço, José Ferreira e Francisco Ferraz.

O historiador Nireu Cavalcanti escreveu o livro a partir de documentosAlessandro Costa / Agência O Dia

Esses e outros escândalos deram origem a ‘Histórias de Conflitos no Rio de Janeiro Colonial’, escrito a partir de documentos obtidos pelo historiador Nireu Cavalcanti. Ele conta que, dos jesuítas que passaram pela cidade, 19 foram citados por ter amantes mulatas, negras e brancas, escravas ou livres, alguns com filhos. Seis foram denunciados por homossexualismo. “Os relatos mostram que os problemas que a Igreja enfrenta hoje, como pedofilia e escândalos sexuais, são coisa antiga”, afirma Nireu Cavalcanti.

As puladas de cerca dos jesuítas irritaram o bispo Dom Antônio do Desterro, que veio ao Brasil investigá-los. “Nunca supunha haver tanta diabrura numa família religiosa”, confessou.

Muitos anos antes da descoberta dos efeitos alucinógenos da maconha, a capital foi porta de entrada das primeiras mudas da erva que chegaram ao país. Nireu Cavalcanti lembra que colonos que vinham ao Rio recebiam mudas da cannabis sativa.

Do caule da planta, era extraído o linho de cânhamo, fibra muito resistente usada em cordas e velas de embarcações. “A Coroa tinha o maior interesse na plantação em grande escala nas suas feitorias”, explica o historiador.

Segundo ele, era um projeto da colonização lusa para as capitanias hereditárias. “Queriam fazer do Rio o grande centro de distribuição da planta para outras regiões do país. Só não há registros de quando ela passou a ser usada como droga”, lamenta.

Porto já recebia muitos produtos contrabandeados no Rio colôniaReprodução

ENJEITADOS

Em 14 de janeiro de 1738, o rico negociante Romão Duarte fez uma doação à Santa Casa de Misericórdia do Rio para ajudar na criação dos “meninos expostos” e iniciar a famosa “roda”. A mãe que não queria o filho colocava a criança em uma portinha na parede da Santa Casa, que girava até o lado de dentro, onde religiosas da irmandade recebiam os “enjeitados”.

ADOÇÃO

Até o século 18, cabia à Câmara de Vereadores encaminhar as crianças abandonadas para a adoção. A tarefa era delegada a casais ou mulheres “honestas, solteiras e viúvas”. Em troca, elas recebiam ajuda financeira.

ROMANCE PROIBIDO

Muitos dos “enjeitados’’ eram filhos de moças de família que se envolviam com militares ou homens casados. “As roupas largas permitiam esconder a gravidez. Ao nascer, os bebês eram abandonados na Santa Casa”, conta o historiador. Com o recém-nascido, iam roupinhas e bilhetes com recomendações. “Que a ama de leite seja limpa de achaques e de bom procedimento”.

MAIORIA DE ESCRAVOS

Em 1796, viviam no Rio 84 mil escravos. A população era formada por 182.757 pessoas, sendo 39,9% de brancos, 10,48% de pardos libertos, 3,60% de pretos livres e 46% de escravos.

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