Por thiago.antunes

Rio - Wallace Duarte, de 16 anos, foi morto, nesta segunda-feira, às 21h, em confronto com policiais do 41º BPM (Irajá) na favela Para-Pedro, em Colégio. A ação aconteceu poucas horas depois de Maria Eduarda Sardinha da Silva, de 11, morrer vítima de bala perdida também durante confronto entre policiais e traficantes da mesma favela.

Segundo a polícia, Wallace seria integrante do tráfico na região. Com ele foi apreendida uma pistola calibre 380 e um radiotransmissor.

Enterro de Maria Eduarda em Irajá

O corpo de Maria Eduarda Sardinha da Silva, de 11 anos, será enterrado às 14h desta terça-feira, no Cemitério de Irajá, na Zona Norte. O pai da vítima atingida por bala perdida na Favela Para Pedro, em Colégio, na manhã desta segunda-feira.

Luís Claudio Ribeiro Sardinha, 41 anos, pai da vítima, aguarda a liberação do corpo de Maria Eduarda pelo Instituto Médico-Legal (IML), que pode ocorrer a qualquer momento. Um veículo da Santa Casa de Misericória já está no local. "Quero que acabe com esse sofrimento. Coração chega a estar apertado", disse.

>>>GALERIA: Moradores queimam ônibus após morte de menina

Um ano depois de Adrielly, tragédia se repete

Maria Eduarda teve o mesmo destino de Adrielly dos Santos, de 10 anos, há um ano, vítima de bala perdida em Pilares. Depois da tragédia, moradores da comunidade fecharam a Estrada do Colégio e atearam fogo em um ônibus, em protesto contra a ação da PM. O ato parou a Avenida Pastor Martin Luther King nos dois sentidos e teve reflexo também na Avenida Brasil.

Maria Eduarda%2C de 11 anos%2C morreu após ser baleada em um tiroteio na Favela Para PedroReprodução Internet

Moradores acusaram os policiais de entrarem na comunidade atirando, por volta das 8h de ontem, em busca de criminosos. A PM nega e diz que apenas se defendeu do ataque de traficantes. Na ação, Maria Eduarda foi baleada e morreu a caminho do hospital. Tio da menina, Silvano André da Silva, de 49 anos, e o sobrinho, David Araújo da Silva, de 7, foram atingidos de raspão no braço e na cabeça, respectivamente. Eles foram socorridos na UPA de Rocha Miranda e liberados em seguida.

“Os policiais entraram na comunidade barbarizando e deram de cara com os bandidos, que saíram correndo. E eles (policiais) começaram a atirar de qualquer jeito, com a casa da minha irmã na frente. Acabou pegando em todo mundo. Eu sei quem atirou. Eu vi os caras”, disse, indignada, Vanessa Soares da Silva, mãe de David e irmã de Maria Eduarda.

Em nota oficial, a Polícia Militar confirmou que a morte de Maria Eduarda se deu durante uma operação e que as armas dos policiais presentes na ação estão à disposição da Polícia Civil para perícia. Até a noite desta segunda-feira, o corpo da menina ainda estava na UPA. O enterro não fora marcado.

DH faz perícia e recolhe armas

Policiais da Divisão de Homicídios (DH) estiveram ontem na Favela Para-Pedro, onde fizeram perícia, a fim de saber de onde partiram os tiros que atingiram as três pessoas, e ouviram testemunhas. Familiares da menina devem prestar depoimento nos próximos dias. Os fuzis e pistolas que estavam com três PMs já foram entregues à DH. Moradores contaram à imprensa que não houve tiroteio e criticaram a ação do 41º BPM: “Não teve confronto nenhum, eles chegaram atirando, sem mais nem menos”, afirmou um homem, que pediu para não ser identificado.

Por sua vez, o comandante do 41º BPM, tenente-coronel Luiz Carlos Gomes, negou a versão do confronto: “Na rua só havia marginais quando os policiais chegaram. Houve confronto e um dos projéteis atravessou uma parede e atingiu a menina, que, infelizmente, veio a falecer”, afirmou o oficial. A Polícia Militar também afirmou que ocupa a comunidade do bairro do Colégio desde o dia 14, quando começou guerra entre traficantes.

Coletivo foi incendiado na Estrada do Colégio em represália à ação do 41º BPM%3A ato parou a Av. Martin Luther King nos dois sentidos e teve reflexo também na BrasilFernando Souza / Agência O Dia

No ano passado, drama no Urubuzinho

Na noite de Natal de 2012, Adrielly dos Santos Vieira, 10 anos, foi atingida por uma bala perdida em frente à casa dela, na Favela do Urubuzinho, em Pilares. Os pais da criança a levaram para o Hospital Salgado Filho, no Méier, onde esperaram oito horas por atendimento. A menina teve morte cerebral uma semana depois. No dia do enterro, em clima de revolta e comoção, o pai da menina, Marco Antonio Vieira, desmaiou e não conseguiu acompanhar o cortejo.

“Ele é um delinquente”, disse Marco, na ocasião, usando o mesmo termo com o qual o prefeito Eduardo Paes se referiu ao neurocirurgião Adão Orlando Crespo, que faltou ao plantão, atrasando a cirurgia. Em janeiro, a Delegacia Fazendária da Polícia Civil indiciou Adão Crespo por falsidade ideológica e estelionato contra a administração pública. Depois, ele foi demitido.

Na semana passada, outros dois médicos do Salgado Filho foram indiciados pela morte de Adrielly. O chefe da neurologia da unidade, José Renato Ludolf Paixão, e o chefe do plantão, Enio Eduardo Lima Lopes, vão responder pelo crime de homicídio culposo (sem intenção).

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