Por thiago.antunes
Rio - A tragédia com as vítimas do acidente envolvendo um ônibus na Rodovia Régis Bittencourt, ganhou mais um contorno de sofrimento para as famílias dos mortos nesta terça-feira, às vésperas do Natal. Parentes revelaram que a funcionária pública Valéria dos Santos Leite, 44 anos, identificada somente às 3h30 desta terça, iria ser enterrada como indigente. Segundo a família, Valéria viajou sem preencher o canhoto da passagem e sem seus documentos de identificação. A empresa de ônibus Viação Nossa Senhora da Penha alegou que a vítima não tinha embarcado no coletivo.

A situação foi revertida após o filho da vítima descobrir a bagagem. No entanto, os familiares enfrentam outro drama: o corpo da servidora pode não ser enterrado ainda nesta terça, por falta de certidão de óbito. "A chegada estava marcada para às 9h e o velório para às 14h30. Teremos que ir à Justiça. Nós já estamos sofrendo muito e não conseguimos ter paz e dignidade para enterrar nossa parente", disse a médica Ana Paula Domingues, sobrinha de Valéria. 

O advogado da empresa, Marcelo Munhoz, informou que uma declaração de óbito foi emitida pela companhia para que o enterro das vítimas fosse realizado. No entanto, o documento só é aceito na cidade de São Paulo. A defesa afirmou ainda que acreditava o documento seria válido para parentes dos mortos no Rio.

O segundo andar do ônibus foi completamente esmagado durante a queda em ribanceira de São Lourenço da Serra. Muitos passageiros seguiam para o Rio para passar o NatalEfe

Famílias diferentes, mesmo drama

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Após mais de 18 horas com os corpos dentro da van da funerária aguardando a liberação para o enterro, que só veio através de uma liminar na Justiça, a família dos idosos Ademilde Guimarães Salles, de 60 anos, e de Julio Cezar de Oliveira Salles, 65, conseguiu enterrá-los na manhã desta terça-feira no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, Zona Oeste.
Eles são duas das 15 vítimas do acidente com ônibus da Viação Nossa Senhora da Penha que vinha de Curitiba para o Rio na Rodovia Régis Bittencourt, no interior de São Paulo. Nesta segunda-feira, a Secretaria de Segurança de São Paulo, que havia aumentado o número de mortos para 16, voltou atrás.
Dona Iara chora a morte do filho João Bittencourt%2C 33 anos. O neto de 7 anos sobreviveu à tragédia. Ela acredita que João deve tê-lo protegidoMaíra Coelho / Agência O Dia

O clima era de revolta na cerca de 30 pessoas, entre familiares e amigos, que acompanharam o cortejo. O casal deixa três filhos. "Esse caso não pode cair no esquecimento. Isso poderia ser evitado se houvesse mais responsabilidade da empresa. Vamos acionar a Justiça atrás dos nossos direitos", desabafou Genésio Rodrigues Campos, irmão de Ademilde.

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Familiares, que vieram de Curitiba para o sepultamento, pagaram do próprio bolso as passagens. Para Genésio, houve descaso por parte da Viação Nossa Senhora da Penha em relação as vítimas. "Não se pode tratar a vida de pessoas como se fossem mercadorias". Para os custos do velório e enterro, a empresa, de acordo com a família, disponibilizou R$ 30 mil. Membros da família que vieram da capital paranaense deixam o Rio ainda na tarde desta terça-feira.

O plantão do Tribunal de Justiça do Rio concedeu uma liminar na madrugada desta terça-feira, autorizando uma família a enterrar um casal de idosos vítima do acidente.

Ônibus que sofreu acidente na estrada saiu de Curitiba com destino ao RioMaíra Coelho / Agência O Dia

Enterro autorizado durante a madrugada

A liminar do TJ do Rio foi concedida a família após um dia de luta para tentar sepultar o casal. O enterro marcado para às 16h de segunda-feira não pode ser realizado. Segundo os parentes, a empresa de ônibus providenciou o translado, mas não mandou o atestado de óbito, que foi substituído por uma declaração. Para evitar que a funerária levasse os mortos de volta para São Paulo, os parentes procuraram a Justiça.
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Segundo um funcionário do cemitério, o documento apresentado era uma cópia da declaração de óbito do médico. Com ele seria permitida a colocação dos corpos na capela mas o sepultamento seria inviável. A família dos idosos resolveu então manter os corpos nos carros das funerárias e aguardar a decisão do plantão do TJ. A liminar só chegou por volta das 2h, quando os corpos foram levados para a capela.
Pelo menos 13 pessoas morreram no acidente na madrugada deste domingo Reprodução TV

Segundo a Agência Nacional de Transportes Terrestres de São Paulo (ANTT), a viação deverá indenizar feridos e familiares das vítimas que morreram no valor de R$ 2,9 milhões, que serão divididos por todos. O supervisor da agência reguladora, Paulo Cesar da Silva, disse que a unidade também está acompanhando se a empresa está prestando o atendimento em relação as bagagens e acompanhamento nos hospitais. Segundo Silva, a empresa não é obrigada a cobrir gastos com transportes.

O órgão também fez perícia no local do acidente e constatou que a viação prestou atendimento de emergência no local. A ANTT afirmou que, se for atestado que houve falha humana ou mecânica, a viação poderá ser multada. Nesta segunda, 30 pessoas foram transportadas para Curitiba, a maioria familiares de João da Silva Lima, que será sepultado na cidade.
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Indiciado por homicídio
O delegado Renato Gonçalves Collete, da delegacia de Itapecerica da Serra (SP), trabalha com a hipótese de o motorista Oseas dos Santos Gomes, 56 anos, ter dormido ao volante antes de perder o controle do veículo. Ele disse em depoimento que, quando percebeu, o ônibus já estava caindo. Oseas teria trabalhado também na noite anterior e recebido 12 horas de descanso. O motorista foi indiciado por homicídio culposo, mas liberado depois de ter feito exames toxicológicos que deram negativo.
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Segundo o gerente da viação no Rio, Glicério Moro, 50 familiares foram atendidos pela empresa na Rodoviária Novo Rio, no domingo. Apesar disso, foi consenso entre parentes a falta de informações e as primeiras notícias sobre as vítimas chegaram no final da tarde, cerca de 14 horas após o acidente.
Vítima pulou da janela e se salvou

Além de Valéria Santos Leite, de 44 anos, morreram no acidente Jucinéia Justino Leal, de 42 anos, Regina Célia Nogueira Guimarães, 58, Nelício Mário Engel, 52, João Paulo Souza Lima, 23, João Paulo Quintanilha Cordeiro, 19, João da Silva Lima, 60, Ademilde Guimarães Salles, 60, Julio Cezar de Oliveira Salles, 65, Justa Lindamir dos Anjos, 55, Daniel Pinel de Souza, 60, Maria Aparecida Alves da Silva, 59, Erico Roberto Bittencourt, 30, Iva Pereira da Silva, Gimena Aranda e Marcos de Oliveira da Silva. Além disso, 33 pessoas ficaram feridas.

João Paulo (de verde) pulou da janela e se salvou no acidente Márcio Mercante / Agência O Dia

No domingo, os sobreviventes Maria Elisabeth Amaral de Souza Lima, de 60 anos, e o estudante de engenharia química, João Paulo Partelli Peccino, de 25 anos, que pulou da janela do ônibus, egaram sem ferimentos no Rio.

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Edição: Thiago Antunes