Musa do topless vai desfilar no verão 2014

Cineasta diz que Rio está cada vez mais careta e avisa que gringos vão achar os cariocas ultrapassados

Por O Dia

Rio - Ela é carioca, mas recentemente trocou a vida de executiva em São Paulo para viver de
cinema. E circo. E praia. De peito aberto. A jornalista Ana Paula Nogueira, hoje cineasta, ganhou as páginas de jornais e sites na dia 21 ao se tornar protagonista de um protesto caído (com trocadilho): um ‘toplessaço’ em Ipanema, que contou com a presença de apenas meia dúzia de mulheres — eram esperadas 8 mil.

Contrariada com a baixa adesão numa Ipanema, segundo ela ,“cada vez mais careta”, Ana Paula decidiu encampar de vez a luta contra a hipocrisia que rola não apenas nas praias cariocas, mas na cidade que vai receber cada vez mais turistas no ano que vem. “Os brasileiros da Vieira Souto viajam para fazer topless em Ibiza, mas se alguma mulher faz em Ipanema logo é xingada. Vamos receber milhões e milhões de turistas e fazer papel de jeca? Era só o que me faltava”, questiona.

Politizada, a cineasta não se vê como feminista ou revolucionária. Na parede de seu loft no Cosme Velho, uma frase grafitada de Clarice Lispector chama a atenção e resume bem a postura da balzaquiana de 34 anos: “Liberdade é pouco. O que eu quero ainda não tem nome”.

A intenção de Ana Paula é chamar a atenção do prefeito Eduardo Paes e do governador Sérgio Cabral para liberar o topless e proibir a caretice nas areias. “Gosto da Leila Diniz, que nunca levantou bandeiras e sempre dizia o que pensava. O problema é que a maioria das feministas quer conquistar espaço na base da porrada. E também não sou revolucionária por colocar o peito para fora. Isso é uma coisa muito pequena”, diz ela. Ana Paula tem posições progressistas também em relação a temas como legalização das drogas, do aborto e do casamento gay, que têm avançado em países como o Uruguai, com o presidente José Mujica. Mas prefere ficar apenas no topless. Já arrumou confusão suficiente, diz.

“Nunca vi tanta falsidade no Rio, tanto santo. Nem quando fui visitar as igrejas de Ouro Preto. Não vou levantar essas bandeiras, mas não pode favelado com baseado na mão levar tapa na cara de policial e playboy não levar. E pobre morrer em aborto mal feito e patricinha ir a clínica na Zona Sul. E a gente finge que não vê”.

5 MINUTOS COM: ANA PAULA GONÇALVES NOGUEIRA

‘VAMOS VER SE A GENTE PARA DE CARETICE’

Cineasta diz que esperava mais gente aderindo ao toplessaço e que tirou o sutiã no dia
21 para o Brasil não fazer vexame internacionalmente.

1. Por que você decidiu abraçar essa causa?
— Eu sempre fiz topless no exterior e e me perguntava por que no Rio, a cidade que eu
amo, que é referência em turismo, eu não posso fazer? Quando soube do evento e resolvi
aderir. Cheguei atrasada e me surpreendi ao ver que nenhuma mulher tinha tido a coragem
de tirar o sutiã e que o evento havia micado. Para não virarmos piada internacional,
resolvi ser a primeira.

2. Você acha que o Rio, que sempre ditou moda, está meio careta?
— Acho que vivemos um dos momentos mais caretas dos últimos anos. Temos uma elite muito
“falsa”, conservadora, e a galera que ia ao Posto 9 já não é mais a mesma. Tudo é muito
artificial.

3. Você diz que não quer se meter em outras polêmicas, mas fez críticas à forma como a
sociedade trata questões como drogas e casamento gay.
— Os direitos têm que ser iguais para todos, pois culturalmente fingimos que não vimos
quando a coisa é feita entre pessoas consideradas de um nível social mais alto. Ou
mesmo quando são feitas entre artistas. E isso vale também para mim!

4. Agora você só irá à praia sem o sutiã?
— Pretendo. Vamos ver se a gente para de caretice.

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