Rio à Prova: Tragédias e conquistas em 2013

Nas manifestações nas ruas ou no desaparecimento de um pedreiro, a truculência da PM marcou o ano, que também teve crimes trágicos que chocaram a população do Rio

Por O Dia

Rio - Um ano de algumas conquistas para a segurança pública, mas também marcado por episódios trágicos e que expuseram, internacionalmente, as fraquezas do Rio que ainda sofre com a fama de violento. Entre as maiores feridas abertas em 2013, estão as que arranharam a imagem do principal projeto do governo: as Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs) que, finalmente, começavam a livrar o Rio dos bicos dos fuzis de traficantes. Mas os cariocas despertaram do sonho de liberdade, com o crime cometido por militares da Rocinha contra o pedreiro Amarildo Souza. 

Nas manifestações nas ruas ou no desaparecimento de um pedreiro%2C a truculência da PM marcou o ano%2C que também teve crimes trágicos que chocaram a população do RioAlessandro Costa / Agência O Dia


O caso maculou a confiança recém-conquistada dos moradores, que voltaram a rechaçar a polícia. Uma das consequências foi a sucessão de confrontos com criminosos e abusos cometidos pelos policiais militares, que vieram à tona ao longo do ano. 

A imagem da cidade ficou ainda mais manchada internacionalmente depois que uma turista americana foi estuprada dentro de uma van, em Copacabana, em março. O namorado dela foi agredido na mesma ocasião.

Dentro de casa, a polícia cortou na própria carne e não tolerou erros e crimes cometidos por seus agentes. Em fevereiro, 11 policiais civis foram demitidos por envolvimento com o jogo do bicho. No mês seguinte, 21 PMs da Providência foram presos por ligação com o tráfico, só para citar alguns exemplos. Os comentários duvidosos sobre as mulheres custaram o cargo também do delegado Pedro Paulo Pontes, da 9ª DP (Catete). Ele foi substituído justamente por uma representante do sexo feminino, a delegada Monique Vidal.

Os deslizes no alto escalão também não foram perdoados: em agosto, o então comandante da PM, Erir Ribeiro, foi exonerado após anistiar policiais com punições na ficha disciplinar. A decisão, à revelia do secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, foi a gota d’água da relação entre os dois, já desgastada pelas sucessivas críticas às ações truculentas de PMs durante manifestações de rua.

Quando o Rio parecia respirar os ares de paz pela vinda do Papa Francisco — que fez o governo furar a fila das UPPs e dar, às pressas, uma unidade ao Cerro-Corá, vizinha à hospedagem do pontífice —, a violência voltou à cena. Um confronto de seis horas entre traficantes e policiais do Batalhão de Operações Especiais (Bope) deixou nove mortos no Complexo da Maré, em junho.
Um mês antes, em maio, o próprio secretário de Segurança Pública ficou perto de tiros dados por traficantes na Corrida da Paz do Complexo do Alemão. Na sequência, bandidos fizeram nova afronta à cidade incendiando a sede do AfroReggae, no conjunto de favelas.

A Zona Oeste também sofreu revezes. Em outubro, sete pessoas da mesma família foram executadas em casa, em Realengo. No fim do mês, a ousadia de bandidos matou um PM e Kayo da Silva Costa, de 8 anos, em Bangu. Criminosos invadiram o Fórum para resgatar comparsas e abriram fogo contra a polícia, fazendo as duas vítimas. Kayo foi atingido na rua em frente, quando voltava da escolinha de futebol com a avó que, desesperada, ainda tentou protegê-lo.

As forças de segurança também foram alvo de crimes, mesmo que cibernéticos. Em setembro, hackers invadiram o banco de dados da Polícia Militar e vazaram na internet informações pessoais de 50 mil policiais. Até o comandante da corporação teve nome, CPF e endereço de e-mail, entre outros dados, revelados pelos invasores. Três responsáveis pela divulgação foram identificados e autuados.

A Lapa, reduto boêmio e cartão-postal do Rio, também não escapou da violência. Já no fim do ano, em dezembro, outro crime chocante: Conrado Chaves da Paz, de 19 anos, foi assassinado por um morador de rua quando voltava para casa após comemoração com amigos. Só a partir daí, as forças de segurança resolveram agir e deram choque de ordem no bairro. Uma verdadeira tropa de policiais, guardas municipais e agentes de diversos órgãos passaram a circular pela Lapa para coibir a criminalidade.

Mas a cidade também começou a reagir ao crime e combatê-lo de frente. O ano foi marcado pelo maior número de pacificações em comunidades: a polícia teve fôlego para fazer três ocupações e inaugurar 11 UPPs. E a esperança deve se renovar logo no início de 2014, com a promessa de retomada do último grande reduto do crime: o Complexo da Maré. 

AMARILDO: O CRIME QUE ABALOU A UPP

Em 2013, o caso mais comentado no Brasil foi o desaparecimento do pedreiro Amarildo de Souza. O episódio, que abalou a imagem das Unidades de Polícia Pacificadoras (UPPs), ocorreu na Rocinha em 14 de julho. A Divisão de Homicídios apurou que ele foi abordado por policiais militares e levado para a sede da UPP, onde foi torturado. O corpo nunca foi achado. Vinte e cinco policiais foram denunciados pelo crime, inclusive o comandante da UPP, major Edson Santos. 

BRUNO CONDENADO
rês anos depois do desaparecimento de Eliza Samudio, mãe de seu filho e sua amante, o ex-goleiro do Flamengo Bruno Fernandes foi condenado a 22 anos de prisão, no Dia Internacional da Mulher. O crime que chocou o país pela sordidez — Eliza, que deixou o filho com apenas quatro meses de idade, foi sequestrada e torturada — teve seu desfecho depois de cinco dias de um tenso e dramático julgamento em Minas Gerais.

ESTILISTA PERDE A MÃE E A SOBRINHA
A violência bateu à porta do dono de uma das mais conceituadas grifes, a Complexo B. Em agosto, o estilista Beto Neves perdeu a mãe e a sobrinha, assassinadas em casa, em São Gonçalo. O noivo da jovem também foi morto. A polícia descobriu que o mandante do crime foi o ex-padrasto da moça, Michel Salim, que foi preso. Beto encontrou forças na fé para se reerguer e criou uma linha de camisetas com o tema, que viraram sucesso. 

FIM DA LINHA PARA BANDIDOS DO CAJU
Durante anos território dominado pelo tráfico, as comunidades do Caju e da Barreira do Vasco foram ocupadas definitivamente pela polícia em 3 de março, para a implantação de UPPs. As áreas eram de importância estratégica, já que por elas se tem acesso à Baía de Guanabara e a vias expressas, como Avenida Brasil e Linha Vermelha. Durante a operação, uma série de erros na identificação de suspeitos por PMs e Ministério Público levou quatro inocentes à prisão. 

CRUELDADE EM PIRAÍ
Com uma frieza desconcertante, a manicure Suzana do Carmo de Oliveira Figueiredo confessou ter matado o menino João Felipe Eiras Santana Bichara, de 6 anos, em Barra do Piraí. O crime foi no dia 25 de março. A mulher, que trabalhava para a mãe do menino, o pegou na escola e o levou a um hotel, onde o asfixiou. Depois, escondeu o corpo na própria casa. Suzana chegou a alegar que queria dar um susto no pai do menino, com quem manteria um caso.

BEBÊ ASSASSINADA
Uma tragédia marcou o início do ano: Geovanna Vitória, de apenas 1 ano, foi assassinada com um tiro em janeiro, quando bandidos tentavam roubar o carro a mãe dela em Belford Roxo. Atingida no peito, a menina já chegou morta ao hospital. Desesperada, a mãe ainda tentou amamentar o bebê e comoveu a todos no enterro: “Deus, ressuscite minha filha”. Meses depois, um dos assassinos foi preso com a pistola usada no crime. 

PASTOR PRESO POR ESTUPRO
Acusado de estuprar duas fiéis de sua igreja, o líder da Assembleia de Deus dos Últimos Dias, Marcos Pereira, foi preso em 7 de maio. Ele negou o crime e integrantes da igreja protestaram contra a sua prisão. Outras quatro denúncias surgiram depois, e o pastor foi condenado a 15 anos de prisão. Inquérito da Delegacia de Combate às Drogas (DCOD) investigou o religioso também por lavagem de dinheiro, associação para o tráfico de drogas e quatro homicídios. 

ANISTIA A POLICIAIS DERRUBA COMANDANTE-GERAL
Uma sucessão de acontecimentos, que teve seu ápice com a decisão de anistiar PMs com punições, derrubou do comando da Polícia Militar o coronel Erir Ribeiro, em agosto. Nos bastidores da Segurança Pública, o clima estava tenso entre o comandante e o secretário José Mariano Beltrame desde as manifestações nas ruas, em junho, quando a truculência de policiais repercutiu internacionalmente. O indulto dado aos PMs foi revogado pelo sucessor, coronel Luís Castro.

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