Por tamyres.matos

Rio - A Prefeitura de Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, sabia pelo menos desde novembro de 2012 da existência de lixões clandestinos e do risco que eles representam aos mais de 17 milhões de passageiros que chegam ou saem do Rio pelo Aeroporto Internacional Tom Jobim, o Galeão. Por duas vezes (a outra foi em fevereiro de 2013, já na atual gestão), a Infraero alertou o município para o perigo dos aterros clandestinos, agora controlados pelo tráfico de drogas, como mostrou O DIA na segunda-feira.

Por determinação da lei 12.725/12, a estatal tem que monitorar um raio de 20 quilômetros, a partir de sua pista principal, para identificar possíveis focos de atração de aves — principalmente urubus — que são atraídas pelos lixões e põem em risco a segurança aérea nos momentos mais críticos do voo: o pouso e a decolagem. Apesar das duas notificações, os aterros ilegais permaneceram no local, a cerca de cinco quilômetros do Galeão.

No Morro do Baú%2C Itanhangá%2C lixão vertical desce rasgando a vegetação e cria um caminho de doenças e danos ambientais%2C segundo biólogoReprodução

De novembro de 2012 até ontem, houve ao menos 103 registros de incidentes envolvendo aves na área do Galeão, feitos no Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), órgão ligado à Aeronáutica. E, neles, O DIA contou dez incidentes com gravidade só em 2013. Como os pilotos não são obrigados a reportar as colisões com aves, o levantamento pode estar subnotificado. Em um dos relatos, o piloto aborta a decolagem após a turbina “engolir” um urubu, em 22 de maio. Em outro, em 25 de março, o comandante afirma ter sido obrigado a trocar de avião.

O pesquisador da Coppe/UFRJ, Jiovannini Luigi, que trabalhou para a Infraero mapeando a ocorrência de animais nos aeroportos, alerta para a situação no Galeão: “É algo que deveria tirar o sono dos responsáveis, pois ‘ferrar’ o motor de um avião justamente quando ele está com poucos recursos de manobra, é temerário.”

Procurada, a Prefeitura de Duque de Caxias não quis comentar o assunto.

Rio está infestado de lixões, diz biólogo

Gramacho não tem a exclusividade de lixões a céu aberto. “O Rio está infestado de lixões que oferecem perigo à saúde e riscos de enchentes, em caso de chuva forte”, alerta o biólogo e ambientalista Mario Moscatelli, que monitora áreas costeiras e constantemente flagra o nascimento de pontos ilegais de despejo de resíduos.

Numa encosta do Morro do Baú, no Itanhangá, uma cachoeira divide o cenário com uma cascata de lixo doméstico. É o chamado lixão vertical, que desce rasgando a vegetação e criando um caminho de doenças e danos ambientais. “Detectei esse no Itanhangá e também no Pavão-Pavãozinho, além de inúmeros pontos em Jacarepaguá. Em São Gonçalo, uma área em Itaoca também virou concentração de detritos”, revela.

Em Vargem Grande, na região de Jacarepaguá, toneladas de lixo estão sendo espalhadas sobre uma pequena lagoa. Em Curicica, ainda em Jacarepaguá, parte da mata de um morro foi sangrada para abrigar um lixão.
Segundo Moscatelli, os lixões a céu aberto também destroem as lagoas, mangues e baías e comprometem a vida pesqueira. “É uma atividade suicida, a curto prazo. Se houver uma chuva torrencial, esse lixo entupirá tudo e o prejuízo será de todos”.

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