Ocupantes da Favela do Metrô são recadastrados para programas sociais

Na manhã desta quinta, manifestantes arremessaram pedras contra a linha férrea e clima tenso se repetiu

Por O Dia

Rio - Após três dias de protestos e enfrentamentos contra o projeto de demolição dos imóveis na Favela do Metrô, na Mangueira, a prefeitura iniciou ontem o cadastro dos moradores que serão contemplados com programas sociais. Os dados colhidos serão confrontados com o banco de dados da prefeitura para apurar quem realmente ocupa o local desde 2010. Denúncias dos próprios moradores dão conta de que imóveis vazios foram ocupados nas últimas semanas por pessoas interessadas em receber imóveis do governo.

Policiais do BP-Choque foram chamados após nova manifestação pela manhã na comunidade%2C em que ocupantes ameaçaram fazer uma barreira humana para impedir remoçõesAlexandre Vieira / Agência O Dia

“Ajudaremos a prefeitura a identificar quem está apto a receber o acordo proposto. Temos um cadastro dos moradores mais antigos que pode ajudar”, garantiu a advogada dos ocupantes, Eloisa Samy. A proposta feita pela prefeitura inclui R$ 400 de aluguel social até a entrega de imóveis de um conjunto habitacional do Programa Minha Casa, Minha Vida, que está sendo construído em Santa Cruz. A decisão foi tomada após reunião com representantes da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e da Defensoria Pública.

Apesar de reaberto o diálogo e da aceitação da proposta pela maioria, o cadastro foi interrompido após a exaltação de moradores que discordaram dos valores oferecidos. À noite, houve novo protesto contra as remoções e os moradores interditaram a Radial Oeste, por volta das 22h, no sentido Méier.

Já pela manhã, o clima era de tensão. Inconformados, moradores ameaçaram fazer uma barreira humana, caso 18 casas fossem demolidas. Manifestantes arremessaram pedras contra a linha férrea. O Metrô chegou a interromper o funcionamento entre as estações de São Cristóvão e Triagem. Black blocs foram para a favela e chegaram a montar uma barricada com móveis e entulhos. Policiais do Batalhão de Choque da PM ocuparam o local.

Personagem dos black blocs%2C Batman fez sucesso entre as criançasAlexandre Vieira / Agência O Dia

No início da tarde, o clima era de paz. No entanto, na parte da noite, 50 moradores fizeram um novo protesto na Avenida Radial Oeste, altura da Rua S. Francisco Xavier, e interditaram novamente o trânsito no sentido Méier. Apesar disso, não houve registro de tumulto.

Um manifestante vestido de Batman, que foi símbolo dos black blocs, fez sucesso entre as crianças. Em meio ao iminente conflito, o morador Edmilson Silva, desde 2010 no local, torcia por um acordo: “Não aguento mais viver entre a miséria e as bombas. Peço a Deus que me dê uma vida digna.”

Remoção começou há três anos

Reunido com os moradores, o advogado da OAB Rodrigo Mondego dava o tom da conciliação: “Todos aqui querem viver em condições dignas. Se abrigos públicos fossem bons não haveria mendigos pelas ruas do Rio.”

Segundo a prefeitura, um projeto de reassentamento integral das 662 famílias que moravam no local foi iniciado em 2010 e concluído em 2013. Todas teriam sido contempladas com imóveis do Minha Casa Minha Vida em locais próximos.

Porém, as construções geminadas impediram que os imóveis fossem demolidos logo após a desocupação, já que a derrubada de um poderia afetar a estrutura do outro. Sem fiscalização, novos ocupantes passaram a morar nas unidades vazias, o que impede hoje de se precisar quem, de fato, é morador antigo.

‘ÓRFÃOS DO CÉLIO DE BARROS’ FAZEM PROTESTO PACÍFICO CONTRA A DESATIVAÇÃO

Pela manhã, a poucos metros da Favela do Metrô, no entorno do Estádio do Maracanã, cerca de 60 atletas de velocidade também realizaram um protesto. Eles, que se definem como “órfãos do Célio de Barros”, fizeram um manifesto pacífico pelo ‘aniversário de um ano’ do fechamento do estádio de atletismo para treinamento profissional.

Edmilson Silva%2C que vive há três anos na Favela do Metrô%2C torce por um acordoAlexandre Vieira / Agência O Dia

“O Rio de Janeiro não tem hoje um único centro esportivo que reúna as condições olímpicas do Célio de Barros. Treinamos em locais improvisados, que não contemplam todas as modalidades do atletismo e onde faltam equipamentos. Estamos a dois anos de sediar os Jogos de 2016 e a realidade amedronta”, desabafou a treinadora Edineida Freire, que conduzia um projeto social no local.
Entre os pedidos do grupo está a reconstrução imediata da estrutura do estádio — descaracterizado por conta das obras para os grandes eventos — dentro do que se considera ideal para os padrões olímpicos e a definição de datas do cronograma de obras.

A disponibilização de um ônibus que faça o deslocamento dos atletas também está entre os pleitos. “Hoje todos arcam com o custo das passagens. Quando fomos remanejados, o governo nos prometeu um ônibus para os atletas. O Maracanã era um local central e nem todos têm condições de arcar com isto”, completa Edineida.

A falta de referência para treinamento já desestimula os jovens talentos do esporte. A velocista Luiza Vieira, de 16 anos, diz ter a performance afetada pela estrutura com a qual conta hoje. “No Engenhão, onde treinamos atualmente, não temos sala de musculação e tam há poucos bebedouros funcionanando diariamente. Como exigir o melhor do corpo nesta realidade?”, questiona.

O protesto foi apoiado por integrantes do movimento ‘O Maracanã é Nosso’, que pede preços mais justos e transparência nos custos das obras do estádio. Ao meio-dia, os manifestantes fizeram um piquenique no chão. O Estádio Célio de Barros foi inaugurado em 1974 com a estrutura de arquibancadas e adequações para diversas modalidades.

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