Por tamyres.matos
Rio - ‘Seu merda!” É inevitável. Quando alguém se lembra de Albeniza Garcia reproduz imediatamente a frase que se tornou o emblema daquela que sempre será uma das maiores jornalistas do país, primeira mulher a trabalhar na reportagem policial em todo o Brasil, inspirando nada menos que cinco gerações de repórteres, em 57 anos de carreira ininterrupta. Aos 84 anos, ela foi enterrada ontem no Rio.
Como no teatro, em que o mesmo palavrão significa um desejo de boa sorte, o “seu merda” de Albeniza não era carregado de ofensa. Era o jeito dela. Muito ao contrário, a reprimenda muitas vezes soava até carinhosa, repetida sempre que um colega agia de maneira que ela desaprovasse ou deixasse de fazer algo imprescindível, em sua opinião. Ninguém se importava. Ser chamado de “seu merda” por Albeniza Garcia, ‘a lenda’, como era conhecida, significava a honra de entrar para o folclore que cercava a vida dela nas redações cariocas.
Lenda do jornalismo%2C Albeniza Garcia tinha 84 anos e morreu nesta quintaBanco de imagens / Agência O DIA

Albeniza não tinha mais que um metro e meio de altura e 40 e poucos quilos. Mas que ninguém se iluda: a morena-clara não tinha nada de frágil, além da aparência física. Era elétrica, aguerrida, focada em seus objetivos e não se dava por vencida. Jamais arredava o pé antes de obter o que julgava necessário à sua matéria. E gostava de dar furo. Como gostava de dar furo! Difícil era explicar aos nossos chefes por que Albeniza conseguira a informação e nós, não.

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Sua grande façanha como repórter de polícia era transitar com desenvoltura nas duas parcelas da equação, para obter o produto do seu trabalho. Impressionava como ela era respeitada por bandidos e amada por policiais militares e civis.
O maior exemplo disso aconteceu em 1990, quando Mauro Luís Gonçalves de Oliveira, o Maurinho Branco, sequestrou o empresário Roberto Medina. Pressionado pela polícia, que prendeu sua mãe e outros integrantes de sua família, Maurinho Branco disse que libertaria o empresário. Mas só na presença de Albeniza.
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Ele cumpriu o prometido: entregou Medina a Albeniza e fugiu. Antes, porém, “presenteou” a repórter com um gavião, preso numa gaiola. A imagem registrada de Albeniza e Medina no banco de trás do carro do DIA correu mundo. Provavelmente, assim que a porta do veículo se fechou com todos dentro, ela deve ter dito ao fotógrafo: “Faz logo essa foto, seu merda”! Na delegacia, foi recebida com pompa pelos policiais. Horas depois, adentrou a redação com o gavião, para delírio dos colegas.
Além dos prêmios de jornalismo%2C Albeniza foi condecorada com a Medalha Pedro Ernesto em 2005%2C na ABIAndréa Farias / Banco de imagens

Para nós, que ficamos, só resta a lembrança de suas histórias, a saudade de sua presença e a vontade de lhe dar uma pauta final: “Albeniza, vai apurando aí como é do outro lado, porque um dia a gente vai se encontrar”!

Uma carreira premiada, mesmo após aposentadoria
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Aos 18 anos, Albeniza tomou a grande decisão de sua vida: procurou o jornalista Roberto Marinho, dono do jornal O Globo, e pediu uma vaga na reportagem. “Policial”, enfatizou ela, para total surpresa do empresário. Marinho gostou da audácia da pequena e abriu-lhe as portas da 'repol'.
No início da década de 1980, já aposentada no Globo, Albeniza pôs seu bloco e caneta a serviço do DIA, onde brilhou até ser obrigada a abandonar a carreira por motivos de saúde, já nos anos 2000.
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Na bagagem, levou o orgulho do reconhecimento profissional traduzido em dois importantes prêmios: o de Direitos Humanos da Sociedade Interamericana de Imprensa, em 1995, pela série de reportagens ‘A infância perdida’, e o Esso Região Sudeste, com ‘A infância a serviço do crime’, em 1997.
Doença a tirou das redações
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Mãe de três filhos e avó de quatro netos, Albeniza foi enterrada nesta quinta-feira, por volta das 18h, no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju, na presença de parentes e amigos. Ela sofria de Alzheimer desde 2002, quando se afastou das redações. Segundo a filha Nelita, que cuidou dela desde o início de sua doença, Albeniza morreu de insuficiência respiratória e broncoaspiração. Ela passou mal enquanto dormia, em sua casa, na Tijuca, e chegou a ser levada para o Hospital São Francisco de Paula, no mesmo bairro, onde morreu.
Suas inúmeras histórias, vividas durante os 57 anos em que exerceu o jornalismo, não pararam de ser lembradas pelos colegas de profissão. Uma delas, contada pelo diretor-geral do Sistema Globo de Rádio, Bruno Thys, retrata bem o espírito de repórter de Albeniza.
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“Havia uma investigação sobre um crime na Urca. O delegado já tinha os nomes de dois suspeitos, mas não queria dar pistas. Eu estava começando. Isso devia ser 1980, 1981. Eu pelo JB e ela, pelo Globo. Estávamos na sala dele. O inquérito estava sobre a mesa. Quando o delegado saiu da sala, Albeniza mandou que eu vigiasse a porta enquanto ela copiava os detalhes do inquérito. Saímos de lá com muita informação!”