Seis meses sem Amarildo

Família já está morando em uma nova casa na Rocinha, comprada com dinheiro arrecadado em um leilão promovido por artistas. Amigos ajudaram a mobiliar

Por O Dia

Rio - ‘Essa é a minha casinha’. Foi assim, animada com a nova moradia, que Elizabeth Gomes da Silva, mulher do pedreiro Amarildo de Souza, apresentou à equipe do DIA a casa da família na Rocinha, sexta-feira. O imóvel tem cinco cômodos e varanda, e está pintada. Em nada lembra as condições de miséria que eles viviam com os seis filhos em outra localidade da favela, numa casa de apenas um cômodo, onde nem banheiro havia.

Ali, Elizabeth vivia com Amarildo e os seis filhos. Foi de lá que ele saiu retirado por PMs da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da comunidade para a morte em 14 de julho. Treze policiais foram presos, e 25, indiciados pelo crime.

Elizabeth%2C viúva de Amarildo%2C com os filhos%2C na nova casa na RocinhaCarlo Wrede / Agência O Dia

Seis meses se passaram e, nesse período, a mudança de casa não foi a única transformação na vida de Elizabeth. Os filhos pequenos tiveram que trocar de escola. O mais velho, Anderson Dias, virou modelo. Elizabeth morou de favor na casa de parentes com os filhos, que, assim como ela, estão em tratamento psicológico. Além disso, por onde ela anda é reconhecida.

Apesar das mudanças, a pergunta que mobilizou os cariocas, ‘Onde está Amarildo?’, permanece do mesmo jeito: sem resposta. Até hoje, o corpo dele não foi achado.

A nova casa foi escolhida por Elizabeth e comprada por R$ 50 mil, com dinheiro de um leilão promovido por artistas como Caetano Veloso e Marisa Monte. Ela se mudou no dia 27 de dezembro e comprou parte dos móveis com ajuda de amigos:

“Minha vida virou do avesso. Virei pai e mãe dos meus filhos. Tive que mudá-los de escola porque as crianças não paravam de perguntar sobre o caso. Um até brigou no colégio. Minha filha pequena ainda chora de saudade do pai. Tem aparecido pouco trabalho para o Anderson. E, passado esse tempo todo, ainda não acharam o corpo”. Ela nega que tenha voltado a usar drogas após o crime: “Parei há quatro anos. Só bebo cerveja”.

Mesmo se dizendo feliz com a nova moradia, Elizabeth contou que sonha em terminar a construção do antigo imóvel, que estava sendo erguido por Amarildo. “O material que ele comprou e pagou ainda está lá”, contou.

Viúva: ‘Não me conformo’

A cozinha é o lugar da casa que Elizabeth mais gosta; “É grande. Estou feliz. Meu sonho é ter uma mesa com cadeiras para eu e meus filhos comermos juntos, conversando”. Apesar de ter um quarto para ele, Alisson, de 10 anos, dorme com a mãe: “Às vezes durmo no quarto do meu irmão. Agora, posso escolher onde quero ficar”.

Milena, 6, ganhou uma piscina, que ficará no quintal. A mudança de casa não foi o único momento de alegria para Elizabeth em meio à tragédia. Pela TV, ela foi reconhecida e conseguiu reencontrar as duas filhas que deixou, ainda bebês, no Rio Grande do Norte. Uma delas é Andrea Gomes. “Mas tudo isso não vai trazer meu marido de volta. Sou muito grata a todos que me ajudam. Mas não me conformo com o que aconteceu. Vou continuar lutando para encontrá-lo.”

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