Por bianca.lobianco
Publicado 22/01/2014 00:00 | Atualizado 22/01/2014 14:31
Uma história de superação e heroísmo%3A Rodrigo%2C que teve uma perna amputada aos 15 anos%2C já foi chamado em casa para salvar uma pessoa Fabio Gonçalves / Agência O Dia

Rio - Você se lançaria no mar para salvar um desconhecido? O atleta Rodrigo Amparo, 29 anos, sim. E já fez isso mais de uma vez. Na verdade, oito, mesmo sem ter uma das pernas. Amputado há 14 anos, foi ele que se arriscou na correnteza, na segunda-feira, na praia de Gravatá, em Saquarema, para resgatar três jovens que se afogavam. Na corrida contra o tempo, Rodrigo foi da água para a areia três vezes. Duas foram para levar duas garotas. Na última, o baque: o estudante Lucas, de 15 anos, afundou e desapareceu.

“Peguei a primeira garota e voltei. Na segunda vez, eu tinha que escolher: pegava uma delas, que já golfava água, ou o menino, que estava mais distante. Eu a puxei porque ela estava mais perto”, contou Rodrigo, que estava surfando antes de fazer os salvamentos. A necessidade de fazer uma opção entre duas vidas perturba o atleta, que ficou muito abalado.

“Quando voltei de novo, já estava a cem metros do Lucas, e ele afundou. Fiquei debaixo da água um tempo para ver se o encontrava, mas não consegui achá-lo. Estou muito triste”, lamentou o atleta, que aprendeu a nadar sozinho e já chegou a ser chamado em casa para salvar um adolescente de 17 anos. “Não sou herói, mas, sim, uma pessoa iluminada por Deus, por estar no momento certo quando alguém precisa”, afirmou ele, que é meio-campo na seleção de futebol paralímpica

O corpo de Lucas, que passava feriado com a família na região, ainda não foi encontrado. Rodrigo conta que, no momento do afogamento, não havia nenhum salva-vidas na praia, situação que ele disse ser comum por ali.

“A gente vai fazer uma abaixo-assinado para ver se sensibiliza a prefeitura . No Centro de Saquarema, tem salva-vida, mas é porque tem turista lá. Aqui, mesmo no período de férias, a praia fica sem ninguém”. Os bombeiros, segundo o atleta, só chegaram depois que as meninas já tinham sido resgatadas.

O salvamento foi acompanhado por moradores. Para eles, Rodrigo é um espécie de anjo da guarda das águas de Gravatá. “Já o vi socorrer duas pessoas. Ele parece nadar como um peixinho”, contou Shirley de Souza, 51 anos.

Rodrigo tem uma história de superação. Aos 15 anos, ele perdeu a perna esquerda ao ser atingido acidentalmente por um tiro de escopeta calibre 12, durante uma briga na casa de um amigo que ele visitava. Além de atuar no time da Associação Niteroiense dos Deficientes Físicos (Andef), onde acumula títulos, ele é instrutor do Projeto Botinho.

Esquema de socorro em Saquarema é criticado

Ao ser questionada sobre a falta de salva-vidas, o Corpo de Bombeiros informou que na região onde ocorreu o afogamento na segunda-feira, os salvamentos são realizados por agentes da Prefeitura de Saquarema, e não pela corporação. O município foi procurado, mas até o fechamento da edição, a Secretaria de Segurança e Ordem Pública, que deveria responder sobre o assunto, não se posicionou sobre a falta de profissionais de resgate na Praia de Gravatá.

De acordo com o Corpo de Bombeiros, outras praias, como de Itaúna, Barrinha e da Vila, contam com nove guarda-vidas. “Os profissionais ficam equipados e posicionados geograficamente em postos fixos e móveis, ordenados de acordo com a necessidade, e levam em conta principalmente a frequência de banhistas”, explicou a corporação, em nota. Revoltados com os constantes afogamentos, os moradores estão preparando uma manifestação para exigir da prefeitura a contratação de mais salva-vidas.

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