Por thiago.antunes

Rio - Foi enterrado, às 16h20 desta segunda-feira, o corpo do cineasta e documentarista Eduardo Coutinho, 81 anos, morto a facadas em sua casa neste domingo, na Lagoa Rodrigo de Freitas, Zona Sul do Rio. Centenas de pessoas, entre amigos e parentes, compareceram ao cortejo no Cemitério São João Batista, em Botafogo. Durante a despedida ao cineasta, os presentes aplaudiram por 10 minutos. 

Bastante abalado%2C filho de Eduardo Coutinho não quis falar com a imprensaAlexandre Vieira / Agência O Dia

O cineasta Walter Carvalho lamentou a morte de Coutinho. "Tem certas pessoas que não têm definição. Coutinho era uma pessoa que tinha uma preocupação coma vida e tentava mostrar isso no cinema. O cinema dele foi um exemplo pra quem quer entender o Brasil", disse. Outros colegas, como Neville de Almeida também falaram sobre a tragédia. "Ele foi um dos maiores cineastas do mundo, um dos poucos com paixão, talento e identidade. Coutinho renovou o gênero do documentário e teve pouco reconhecimento", afirmou o cineasta.

>>>GALERIA: Corpo de Eduardo Coutinho é enterrado

A secretária Estadual de Cultura, Adriana Rattes, comentou sobre a obra do documentarista. "O cinema dele era feito com o coração. Tinha um dom incrível para expressar sua arte". O vereador Antonio Pitanga estava bastante abalado. "O cinema brasileiro fica órfão com esta tragédia. Teremos que aprender a nos reconstruirmos". O ator Wagner Moura falou sobre o legado e Coutinho. "Sem dúvidas foi o maior documentarista brasileiro, deixou um grande presente para as  próximas gerações. É uma pena".

Família lamenta tragédia

A Justiça do Rio decretou nesta segunda a prisão preventiva de Daniel Coutinho, acusado de matar o pai a facadas. Ele está internado sob custódia no Hospital Miguel Couto, na Gávea. Heloísa de Oliveira Coutinho, de 78 anos, irmã do cineasta, relatou que foi avisada da tragédia por um dos filhos de Coutinho.

"Preferiram me ligar para que eu soubesse da notícia por meio da família e não pela imprensa", disse. Moradora de São Paulo, a irmã afirmou que o cineasta "era um cara engraçado, ótimo pai e que tinha muito orgulho dos seus filhos". Segundo ela, Daniel chegou, inclusive, a trabalhar em um filme do pai.

O cineasta João Moreira Salles (à esquerda) no velório de Eduardo CoutinhoAlexandre Vieira / Agência O Dia

Sobre a acusação de que o suspeito sofre de esquizofrenia, a tia afirmou que assuntos relacionados à saúde de Daniel nunca foram revelados. "Eduardo era bem reservado quanto a isso", disse ela.

Vera Lúcia Maciel Sazelle, de 62 anos, professora aposentada e moradora do edifício Master, em Copacabana, onde Coutinho fez um documentário com os integrantes do prédio, disse que mesmo após o cineasta ter finalizado o trabalho, os participantes continuaram mantendo uma certa ligação, ainda que distante, com Eduardo. "Fiquei muito triste com a notícia. Foi uma morte inesperada", lamentou.

Eu libertei meu pai', diz Daniel Coutinho, suspeito de assassinar cineasta

Segundo o delegado Rivaldo Barbosa, titular da Divisão de Homicídios (DH), um dos filhos do documentarista, o jornalista Daniel de Oliveira Coutinho, de 41 anos, teria sido o responsável pelo crime. Daniel também teria tentado matar a mãe e se matar. Daniel teve a prisão preventiva decretada pela Justiça.

O crime aconteceu por volta das 11h. Quando os bombeiros chegaram, minutos depois, o cineasta já estava morto. Em entrevista coletiva na noite deste domingo, o delegado afirmou que Maria das Dores de Oliveira Coutinho, mulher de Eduardo, só conseguiu se salvar porque se trancou no banheiro e de lá ligou para outro filho. Ela levou duas facadas na altura dos seios e três no abdômen e está internada em estado grave no Hospital Municipal Miguel Couto, na Gávea, onde passou por cirurgia.

Eduardo Coutinho na Flip 2013Divulgação

Ainda segundo Rivaldo, após o crime, Daniel se esfaqueou duas vezes e então bateu na porta de vizinhos. Uma das testemunhas ouvidas pela DH relatou que ele repetia a frase “eu libertei o meu pai e tentei libertar a minha mãe e a mim”. Segundo relatos, Daniel teria problemas mentais e sofreria de esquizofrenia. Ele também passou por uma cirurgia no Miguel Couto e seu estado de saúde é estável. O suspeito está internado sob custódia.

“O que aconteceu é a expressão genuína da palavra tragédia. Um filho mata o pai, tenta matar a mãe e cometer suicídio. Não há dúvidas de que Daniel é o autor dos crimes”, disse Rivaldo.

Esquizofrenia pode ser controlada com remédios

Mal que acomete 1% da população mundial — cerca de 70 milhões de pessoas — a esquizofrenia é um distúrbio que atinge o cérebro, podendo causar delírios e alucinações. Características hereditárias colaboram — ela se inicia quando o bebê ainda está sendo formado no útero —, mas a genética não é a única responsável pelo desenvolvimento da doença.

Quando a pessoa entra em surto, passa a viver numa realidade paralela, passando a acreditar, de forma inquestionável, que ela é real. Ouve vozes, vê imagens. O esquizofrênico se vê vítima de perseguição implacável e vive em função de fugir dessa perseguição.

“No quadro típico da psicose, a esquizofrenia é a mais comum", explica a psiquiatra Ana Beatriz Barbosa Silva. Segundo ela, a esquizofrenia tem várias apresentações. As mais conhecidas são paranoide (delírios persecutórios, alucinações auditivas que mandam executar coisas, vê imagens), catatônica (inibição, lentidão, perda de movimentação espontânea; mas também pode haver uma manifestação oposta, em que o indivíduo parece um furacão), hebefrênica (infantilização da personalidade), e a que fica com a cognição e afetivo embotados, fazendo a pessoa ficar alheia a tudo.

Fatores ambientais poderão incidir sobre um genoma combalido, com predisposição herdada, e fazer eclodir a doença. Mas o que é fator estressor para um pode não ser para outro. “Temperamento e fatores educacionais vão determinar essa interação”, explica o psiquiatra Marcos Gebara, diretor regional sudeste da Associação Brasileira de Psiquiatria. Segundo especialistas, a esquizofrenia pode ser detectada com diagnóstico precoce. A doença não tem cura, mas tem controle, a partir de medicamentos.

Colaborou Lucas Freitas

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