Por tamyres.matos

Rio - Religiosos defendem que a igreja é lugar aberto a todos. Não foi assim em março de 1964, quando os marinheiros anistiados pelo presidente João Goulart, depois da revolta, saíram em passeata pela Avenida Presidente Vargas, no Centro do Rio.

Quando passavam pela Igreja da Candelária, um deles sugeriu que entrassem para rezar e agradecer a Deus pelo fato de a revolta terminar sem mortos. Mas os padres fecharam as portas, ao gritos de “comunistas não rezam aqui”, deixando os marinheiros na calçada.

Essa e outras histórias foram acompanhadas de perto pelo jornalista Carlos Chagas e estão no livro ‘A ditadura militar e os golpes dentro do golpe:1964-1969’. A publicação chegou às livrarias na semana passada e resgata o início da carreira do autor, quando era repórter do jornal ‘O Globo’. “É uma visão pessoal do que vi e que ilustra um pouquinho os fatos conhecidos com os desconhecidos”, afirma o jornalista, que escreveu também os dois volumes da obra ‘O Brasil sem retoques’.

Carlos Chagas era assessor do presidente e testemunhou o golpe que levou à formação da junta militarDivulgação

Chagas explica que o título da obra foi escolhido porque considera que determinadas medidas, como a extinção dos partidos, por exemplo, foram outros golpes rumo à extinção do regime democrático, à época.

Outro fato histórico presenciado por Chagas e considerado por ele um golpe foi o fechamento do Congresso em 1966. O então presidente da Câmara, Adauto Lúcio Cardoso, repudiou a última lista de cassação de deputados e a reação do presidente Castello Branco foi pela invasão da casa. “Todos estavam apavorados. Cardoso colocou olheiros para ver de onde vinham as tropas e, durante uma hora e meia, todos assistiram com medo à progressão dos soldados apontando armas em direção ao Congresso”,conta.

O jornalista escreveu ainda sobre o momento em que o coronel Meira Mattos, responsável pela invasão, à frente de mais de 200 soldados, se dirigiu com empáfia ao presidente da Câmara: “Quem é o senhor?”. “Eu sou o poder civil, e o senhor, quem é?”, respondeu Cardoso. “Eu sou o poder militar”, devolveu o policial. O deputado deu um passo atrás e disse que se curvava à força.

AI-5 quase acabou em 1969

Carlos Chagas recorda também que o general Artur da Costa e Silva tinha pronto um decreto para revogar o Ato Institucional nº 5 quando teve um derrame cerebral, em 1969. A medida deu amplos poderes ao presidente e extingiu o habeas corpus.

Na ocasião, Chagas trabalhava como secretário de Imprensa do presidente, e disse ter sido convocado para ajudar na divulgação das mudanças à sociedade. Segundo o autor, a doença de Costa e Silva acabou com o plano.

“Faltava uma semana, quando ele caiu doente. O vice deveria assumir, mas ele também era um defensor do fim do AI-5. Na madrugada, os três ministros formaram a junta militar e assumiram o poder. Assisti a tudo”, diz.

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