Advogado cogita abandonar defesa de acusados da morte de cinegrafista

Divergências em depoimentos podem atrapalhar linha de defesa de Jonas Tadeu Nunes

Por O Dia

Rio - O advogado Jonas Tadeu Nunes cogitou a hipótese de abandonar a defesa dos envolvidos na morte do cinegrafista Santiago Andrade, caso os depoimentos prestados à Polícia Civil continuem divergindo. Segundo ele, os pormenores nas informações prejudicariam a linha de defesa que ele está tentando exercer. 

De acordo com Caio Silva, de 23,  foi Fábio Raposo, de 22, quem acendeu e incentivou que ele soltasse o explosivo. Caio também afirmou que achou que o artefato fosse um sinalizador e o colocou no chão, já aceso. Já o tatuador afirma que apenas acendeu o rojão. A versão de Caio contradiz com a de Fabio. 

"Se começar haver colisão entre eles ficará dificil de eu exercer aquela defesa que eu quero exercer. Porque eu tenho elementos para poder descaracterizar o enquadramento da autoridade policial. A informação que a defesa tem, tem que ser preservada e muito bem guardada. Esses elementos só me são úteis se eles ficarem juntos", disse em entrevista para a Rádio CBN nesta quinta-feira. Nesta tarde, o advogado seguiu para Bangu para conversar com Caio. 

Esposa de Santiago Andrade chegou ao velório do marido usando uma camisa do FlamengoSeverino Silva

'Não tenho dúvidas que o Caio foi quem causou a morte do Santiago', diz delegado

O delegado Maurício Luciano, da 17ª DP (São Cristóvão), que investiga o caso Santiago Andrade, atingido por um rojão durante uma manifestação na última quinta-feira, diz não ter dúvidas de que Caio Silva de Souza causou diretamente a morte do cinegrafista. "O Caio foi a pessoa que causou diretamente a morte do Santiago. Um colega dele, que trabalha no Hospital Rocha Faria, recebeu uma ligação às 19h30, no mesmo dia do protesto, onde ele revelou 'acho que fiz besteira, matei alguém'", afirmou o delegado em coletiva na 17ª DP.

Luciano afirmou ainda que não tem conhecimento do teor do depoimento de Caio e Fábio Raposo, que confessou passar o explosivo para o auxiliar de serviços gerais, mas disse que isto não interfere no inquérito que será enviado ao Ministério Público. "O trabalho entre o Caio e o Fábio Raposo foi em conjunto, para atingirem um objetivo. A divergência é de pormenores. Ambos afirmam que estavam lá, mas isso não tem importância. O que interessa é que ambos estavam na cena do crime e colaboraram com uma cena em comum.

Deus não nos criou para matarmos uns aos outros', diz Dom Orani 

Dom Orani Tempesta pediu por paz na cerimônia de despedida do cinegrafista Santiago Andrade%2C no Cemitério Memorial do Carmo%2C no CajuFoto%3A Severino Silva / Agência O Dia

A cerimônia de despedida do corpo do cinegrafista Santiago Andrade, realizada na manhã desta quinta-feira no Cemitério Memorial do Carmo, foi celebrada pelo arcebispo do Rio Dom Orani Tempesta. Durante as homenagens, Dom Orani disse que a população que quer o bem, precisa semear o bem. O velório que ficou aberto ao público das 7h às 11h, ficou retrito para a família depois desse horário. Por volta das 11h30 o corpo de Santiago foi levado para a sala de cremação.

"Deus não nos criou para matarmos uns aos outros, mesmo que haja divergências de opiniões. Acreditamos que o bem é maior que o mal. Mesmo quem não acredita em Deus, sabe que fazendo o bem seremos mais felizes", disse.

Visivelmente emocionada, a esposa de Santiago Andrade, Arlita Andrade, falou para a imprensa durante o velório do cinegrafista. Ela mandou um recado para Caio Silva de Souza e Fabio Raposo, apontados como autor e co-autor da ação que culminou na morte de Santiago, na última quinta-feira. O cinegrafista foi atingido por um rojão acendido por Caio e teve morte cerebral na segunda-feira.

"Gostaria de falar duas coisas para esses dois rapazes. Que tenho muita pena deles, pois não tiveram um bem maior que nós temos, que é o amor ao próximo. Isso ninguém ensinou a eles", desabafou.

A filha de Santiago, Vanessa Andrade, de 29 ano, deu o último adeus ao pai no Cemitério Memorial do Carmo, no CajuFoto%3A Severino Silva / Agência O Dia

Amigos e familiares prestaram homenagens

Às 8h30, familiares de Santiago chegaram ao local, todos vestidos com camisa do Flamengo, time de coração do profissional. A da esposa do profissional da Rede Bandeirantes havia a inscrição "Santiago, sempre te amarei". Em cima do caixão, há bandeira do clube e uma miniatura de uma câmera em um tripé.

Já colegas da emissora em que trabalhava utilizavam uma camisa com uma charge feita por Celso Mathias em homenagem ao cinegrafista. Na parte de trás, está estampada a frase "Poderia ter sido com qualquer um de nós".

O repórter Alexandre Tortoriello, que ganhou o prêmio Mobilidade Urbana com o amigo Santiago em 2010 e 2011, falou da tristeza que todos estão passando pela perda, mas disse que o ódio não pode prevalecer. "Todo jornalista nesse momento está atingido. Santiago sempre usou a profissão dele para construir um mundo melhor, não para destruir. É muito difícil, mas que possamos fazer um jornalismo não com o fígado e sim com a cabeça. Nós não queremos vingança, mas sim que a pena dele (Caio) seja justa".

Tortoriello também espera que a tragédia ajude a conscientizar os manifestantes que agem de forma violenta nos atos. "Que isso sirva de exemplo para quem acha que para mudar o mundo é preciso levar para a rua paus e pedras".

Diretor de jornalismo da Bandeirantes: 'Há uma irracionalidade e desordem absurdas'

Também esteve presente no velório de Santiago Andrade o diretor nacional de jornalismo da Bandeirantes, o jornalista Fernando Mitre. Ele falou sobre o contexto dos protestos que acontecem no Rio e que, até pouco tempo, havia naturalidade no olhar sobre eles. "Há uma irracionalidade e desordem absurdas. Isso todo mundo vê, mas durante um certo tempo vimos isso com uma naturalidade que não é adequada. Você não pode imaginar que um grupo de mascarados seja visto como representante de algo legitimo".

Santiago sofreu afundamento de crânio, foi submetido à cirurgia e ficou quatro dias internado no Centro de Tratamento Intensivo (CTI) do Hospital Municipal Souza Aguiar. A família do cinegrafista autorizou a doação dos órgãos. Caio Silva de Souza, 22 anos, apontado como a pessoa que acendeu o artefato que atingiu Santiago, foi preso nesta quarta-feira em Feira de Santana, na Bahia.

Familiares e amigos dão adeus ao cinegrafista Santiago AndradeFoto%3A Severino Silva / Agência O Dia


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