Atentado no Riocentro na época da Ditadura volta à tona na Justiça

É a primeira vez que um crime da regime militar tem a tipificação de homicídio doloso, em nova denúncia do MP

Por O Dia

Rio - O Grupo de Trabalho Justiça de Transição do Ministério Público Federal no Rio ofereceu na última sexta-feira as primeiras denúncias por tentativa de homicídio doloso cometidas durante a ditadura militar. Foram denunciados o coronel reformado Wilson Machado, o ex-delegado Claudio Guerra e os generais reformados Nilton Cerqueira e Newton Cruz. A denúncia é relativa ao envolvimento dos acusados no atentado do Riocentro em 1981.

Os quatro também foram acusados de participar de associação criminosa armada e por transporte de explosivo. Newton Cruz foi denunciado ainda pelo crime de favorecimento pessoal. O general reformado Edson Sá Rocha responderá por associação criminosa armada e o major reformado Divany Carvalho Barros, por fraude processual. Se condenado, Newton Cruz, que era chefe do SNI à época, pode pegar até 67 anos de regime fechado. O MPF pede pena mínima de 36 anos. Já os outros podem pegar até 66 anos.

A cena que virou História%3A objetivo era atribuir atentado à esquerdaBanco de imagens

Em 30 de abril de 1981, durante a realização de um show para comemorar o Dia do Trabalhador, no complexo do Riocentro, uma bomba explodiu no colo do sargento Guilherme do Rosário dentro do carro onde ele estava, no estacionamento do local, matando o militar na hora e deixando gravemente ferido o capitão Wilson Machado. Na mesma noite, outra bomba foi lançada na subestação de eletricidade do complexo, com o objetivo de cortar a energia.

As explosões queriam causar pânico no público presente de quase 20 mil pessoas e na sociedade. O plano dos militares era atribuir o atentado à esquerda, para justificar outro endurecimento da ditadura. Mas, por algum erro dos militares, a explosão ocorreu no carro dos agentes.

Os procuradores da República Antonio do Passo Cabral, Sergio Suiama, Ana Cláudia de Sales Alencar, Tatiana Pollo Flores, Andrey Mendonça e Marlon Weichert observam que o caso não está coberto pela Lei da Anistia. “Compreender que fatos posteriores a 1979 podem estar cobertos pela Lei de Anistia seria dar carta branca para todos os crimes do futuro”, afirmou Cabral.

Essa é a terceira investigação do caso. Outros dois inquéritos já foram feitos pelas Forças Armadas em 1981 e 1999, mas arquivados pelo Supremo Tribunal Militar.

Quatro novos acusados pelo atentado

As investigações do MPF duraram quase dois anos e envolveram a análise de 38 volumes de documentos. Foram tomados depoimentos de 42 testemunhas e investigados. E<CW-19>ntre as novas provas apresentadas pelos procuradores está um depoimento do major reformado Divany Carvalho Barros admitindo que foi ao local da explosão, com a missão de apagar provas que incriminassem os militares.

Dos seis acusados, apenas Newton Cruz e Wilson Machado já haviam sido tratados como suspeitos anteriormente. A responsabilização é motivada porque o general Newton Cruz admitiu que ficou sabendo do plano do atentado uma hora antes. Já o general Nilton Cerqueira suspendeu o policiamento do Riocentro no dia. Segundo o MPF, o coronel Edson Sá Rocha fazia parte do grupo que planejou o atentado.

Outro documento importante no trabalho foi a agenda do então comandante do Destacamento de Operações de Informações (DOI) no Rio, Tenente-Coronel Julio Miguel Molinas Dias, morto em 2012. Nela, o militar relatava, minuto a minuto, as informações que recebia a respeito do caso.

O MPF informou que a investigação segue, pois parte dos investigados ainda não foi identificada e um acordo de delação premiada pode ser oferecido.

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