Delegado: 'Pode haver outros Amarildos na Rocinha'

Rivaldo Barbosa afirmou que favela pode esconder mais torturados

Por O Dia

Rio - Três policiais da Divisão de Homicídios foram ouvidos ontem na primeira audiência no Tribunal de Justiça do caso do pedreiro Amarildo de Souza, de 47 anos, torturado e morto em 14 de julho, atrás da sede da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha. O delegado Rivaldo Barbosa, responsável pela investigação, foi o primeiro a depor e disse que ‘pode haver outros Amarildos’ na favela.

Ao todo, 20 testemunhas de acusação foram convocadas. As outras serão ouvidas em nova audiência dia 12 de março. Os 25 policiais militares acusados do crime participaram da audiência. “Foi uma manobra ardilosa para imputar a terceiros a tortura contra o Amarildo. Os policiais perceberam que o major Édson Santos (então comandante da UPP) pressionava os PMs a darem a mesma versão. Ele demorava dias para liberar os PMs para depor”, alegou, em depoimento, Rivaldo, que recorreu à Corregedoria-Geral Unificada. Segundo ele, outros moradores podem ter sido torturados e mortos por militares naquela UPP.

Justiça deu início à audiência de instrução e julgamento dos 25 PMs envolvidos no desaparecimento do pedreiro AmarildoJoão Laet / Agência O Dia

O delegado, que prestou esclarecimentos durante três horas à juiza Daniela Alvarez Prado, contou que os PMs tinham medo de depor e só conseguiu informações de que Amarildo havia sido torturado por meio de conversa informal. E admitiu que a investigação falhou em algum momento porque o local da tortura não foi periciado logo após o crime.

A viúva, Elizabeth de Souza, Anderson, filho do casal, estiveram presentes. Segunda testemunha a depor, a delegada Ellen Souto, responsável pelo setor de Busca de Paradeiro da DH, relatou que reuniu provas técnicas que mostram que a vítima não saiu da UPP da Rocinha por livre e espontânea vontade. Segundo ela, a tese desmonta a versão do major Édson, que afirmou que Amarildo passou pela escadaria que dá acesso à Dioneia antes de desaparecer.

Antes da delegada explicar a dinâmica de tortura e desaparecimento do pedreiro, ela criticou a operação Paz Armada, deflagrada em 13 de julho de 2013, com o objetivo de realizar a prisão de 57 criminosos e coibir o tráfico na comunidade. Um dia depois, Amarildo foi detido por PMs da UPP e levado para averiguação. “A Operação Paz Armada foi um fracasso. Poucas e inexpressivas prisões e nada de armas e drogas”, disse Ellen.

Esposa de Amarildo%2C Elizabeth de Souza%2C compareceu com familiares João Laet / Agência O Dia

‘Tenho ódio do major’

O terceiro e último a depor ontem foi Rafael Rangel, chefe de investigação da DH. A próxima audiência do caso foi marcada para 12 de março. A viúva, Elizabeth de Souza desabafou:
“Eu tenho ódio do major (Edson), que prometeu que meu marido voltaria para casa e depois disse na minha cara que ele só ficou na UPP por dez minutos e foi embora a pé”.

Já o filho pediu justiça: “Queremos o corpo do meu pai para um enterro digno”, disse Anderson, filho de Amarildo. João Tancredo, advogado da família de Amarildo, disparou críticas contra o governo do estado: “Em vez de UPP, ele (governo) está é colocando grupos de extermínios nas favelas”.

Amarildo desapareceu após ser levado por policiais à sede da UPP para averiguação de envolvimento com o tráfico. Investigações da DH apontaram que os PMs achavam que Amarildo sabia onde ficava o esconderijo de armas e drogas de traficantes da Rocinha. Dos 25 PMs réus, 13 estão presos.

A denúncia, apresentada pelo Ministério Público, aponta que o tenente Luiz Medeiros, o sargento Reinaldo Gonçalves e os soldados Anderson Maia e Douglas Roberto Vital torturaram o ajudante de pedreiro. Outros policiais militares, entre eles o major Edson Santos, são acusados de fazer vigília da base, no momento do ato, e de serem omissos, por não terem impedido a tortura.

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