Por thiago.antunes

Rio - Prestes a integrar a nobreza da Igreja, o arcebispo do Rio, Dom Orani João Tempesta, de 63 anos, se diz tranquilo. O homem que, a partir de amanhã, passará a ter direito de votar nas eleições para a escolha do Papa poderá até ser eleito para liderar os católicos e revela desconhecer detalhes de suas novas funções: “Nunca fui cardeal antes”, justifica.

Nesta entrevista, o paulista de São José do Rio Pardo classifica o povo carioca de “heroico”. Trata de temas polêmicos para a Igreja, admite que o pontificado de Francisco representa um momento especial para os católicos e não rejeita a comparação com o processo de abertura da antiga União Soviética.

O DIA: Qual é a origem do nome Orani?

Dom Orani: Meu pai, italiano, dava nomes de santos aos filhos, Maria de Lourdes, Maria Aparecida, Maria Teresa... Eu nasci em 23 de junho, véspera do Dia de São João, a evidência era me chamar João Batista. Mas sou o mais novo, e minha irmã mais velha comandava muita coisa, decidia, dava opinião sobre os nomes dos irmãos. Quis me dar um nome híbrido. Juntou Orlando, de um tio, com o título de um livro que estava lendo, ‘O Guarani’ (de José de Alencar). Ficou Orani, mas meu pai conservou o João.

Como foi que o sr. notou a vocação religiosa e qual foi a reação de sua família diante da decisão de virar padre?

Começou com minha participação como coroinha, mas me decidi durante o antigo curso colegial. Comecei a conversar, a conhecer as possibilidades e, quando terminei o curso, tomei a decisão e deixei meu trabalho. Eu trabalhava numa concessionária da Willys (fabricante de automóveis). Na época, eu tinha 17 anos. A reação da minha família foi misturada. Como italianos, cada um tinha tomado seu rumo. Eu, o caçula, tinha ficado por último. Havia uma expectativa de que eu ficasse em casa, para cuidar dos meus pais. A família reagiu, alguns ficaram chateados, meu pai estava doente. Mas, depois, viram que não tinham perdido nada, acabaram ganhando muitos novos filhos.

'Há uma luta contra a violência. É preciso desarmar os espíritos’Ernesto Carriço / Agência O Dia

Por que a escolha da ordem dos cistercienses?

Já havia um mosteiro da ordem na minha cidade, São José do Rio Pardo. Foi onde eu fiz o catecismo. Lá eu conheci os padres. Havia muitas possibilidades, mas a escolha foi muito boa. É uma ordem monástica que tem trabalhos pastorais. Gostei daquela vida de oração, da atividade pastoral, da paróquia, da comunhão com a diocese.

Na época em que o sr. estava no seminário, havia uma divisão na Igreja: a luta entre chamados conservadores e progressistas, estes ligados à Teologia da Libertação (corrente de esquerda que enfatizava mudanças sociais). Como o sr. se posicionou?

Entre 1970 e 1974, quando estudava Teologia, fiquei na região de Santana, na periferia de São Paulo, e percebi a situação, as dificuldades. Havia problemas relacionados à formação de comunidades, à presença de células comunistas que entraram em debate comigo. Havia um jovem seminarista do interior falando de certas situações na periferia, as dificuldades da população... Mas passei a distinguir muito bem o que significa para a Igreja a evangelização, a missão, e o que é apenas célula política. A diferença entre aquilo que é uma evangelização que leva à libertação, que leva o pobre à uma vida mais justa e humana e o que é apenas uma questão de ideologia política. Nós tínhamos necessidade de trabalhar, víamos as injustiças, mas distinguíamos bem qual era o nosso papel diante daqueles grupos muito ideologizados. Com o tempo a gente vai formulando, vai vendo as coisas. Aquilo que eu via não correspondia a uma teologia da libertação, a gente começava a formular um equilíbrio.

Qual foi sua reação ao saber que viria para o Rio?

Eu estava no trânsito, sempre me pegam no trânsito nessas horas. Fui informado de que o núncio (embaixador do Vaticano) queria falar comigo. Recebi a ligação e a notícia, perguntei se ele tinha certeza, eu estava em Belém, sossegado. Mas aceitei a missão. Eu conhecia o Rio como qualquer turista, sabia muito pouco da realidade da cidade, da Igreja daqui. Sempre, desde o tempo de paróquia, procuro conhecer primeiro a realidade do local em que vou trabalhar,para, depois, ver como contribuir. Aqui, conheci outra realidade, um povo que não aparece muito no noticiário, um povo religioso, que participa e que deseja uma proximidade com seu pastor. Um povo que luta muito para poder trabalhar, poder viver, que tem dificuldades enormes. Um povo muito heroico. Procurei me aculturar, tentar falar sua linguagem.

'Vejo muito boa vontade dos irmãos evangélicos. Pelo menos%2C da maioria deles'Ernesto Carriço / Agência O Dia

O sr. chegou ao Rio num momento muito delicado, em meio a uma série de notícias sobre problemas e até irregularidades na aplicação de recursos da Arquidiocese. Como o sr. encarou o problema?

A gente não vem preparado para nada daquilo, não recebi nenhum relatório dizendo o que acontecia. Não sabia das questões todas, tinha ouvido muito por cima. Não vim preparado para fazer algo nesse sentido. Eu tinha aqui bispos auxiliares, eu os consultava. As questões foram feitas com certo consenso. Eu estava chegando para trabalho pastoral e tinha algumas dificuldades ao redor, de relacionamento com a imprensa, com a cidade, tudo o mais, eu precisava ver que caminhos tomar.

Houve alguma punição ao padre Edvino Steckel?

Decisões foram tomadas, acho que a Igreja não costuma passar para fora aquilo que ela realiza. As coisas foram caminhando dentro da orientação que foi feita.

Qual é a sua avaliação do Rio? Quais são os maiores problemas enfrentados pelos cariocas?

A cidade é fascinante, são várias cidades dentro de uma só, tem até uma zona rural. A Igreja procura trabalhar para que a pessoa tenha o ir e vir com liberdade, para que exista a busca do bem social. Há a luta contra a violência, algo que deve estar presente no coração de cada cristão. É preciso desarmar os espíritos. Outro aspecto é o da justiça social, a necessidade de que o bem da cidade seja o bem do povo em relação à saúde, à educação, à locomoção.

Desde a sua chegada houve um certo desarmamento, Dom Eugenio, por exemplo, comprava muitas brigas com as escolas de samba. O sr. foi à Cidade do Samba, visitou o Cacique de Ramos. Como foi esta decisão?

Eu tenho que cuidar do povo católico, cuidar para que cresça na fé, e sou chamado a ter diálogo com cristãos de outras denominações e com outras religiões, não cristãs. Sou chamado a ter diálogo com a cultura. Dentro do samba nós temos católicos e não católicos trabalhando, é uma cultura bem própria do Rio, embora nacional. Há um trabalho bonito de poesia. Às vezes se tomam alguns aspectos do samba ou mesmo do Carnaval e colocam como se fosse o único. Não se destacam aí as pessoas que trabalharam , colaboraram para fazer as fantasias...

O sr. fala do aspecto mais ligado ao sexo?
Exato, é um ponto menor. A grande maioria está ali suando, trabalhando até demais, no calor do Rio de Janeiro. Se não houver diálogo, não houver conversa, não será possível conhecer o outro. Eu tenho aproveitado essas questões culturais, temos preocupações comuns, buscamos o bem das pessoas, a paz social, seja na comunicação, na diversão, no lazer. O trabalho da Igreja deve ser chamar a todos para dar as mãos. Vejo muito boa vontade dos irmãos evangélicos, não apenas dos tradicionalmente ecumênicos, mas também dos pentecostais, pelo menos, da maioria deles. Como o Rio tem muita visibilidade, as soluções daqui podem ir para diversos locais do mundo. Por ocasião da Jornada (Mundial da Juventude), eu conversei com judeus e muçulmanos, encontros que foram muito bem vistos, isso nos alegra.

'Este é um momento especial para a Igreja%2C temos um Papa que toma iniciativas'Ernesto Carriço / Agência O Dia

O sr. já conhecia o cardeal Bergoglio, o hoje Papa Francisco?

O conheci muito levemente em 2007, em Aparecida, na Conferência Episcopal da América Latina e Caribe. Ele foi encarregado da redação final do documento, fiquei muito admirado com o trabalho dele. Chegou-se a um documento que é um exemplo de documento da Igreja. Durante a Jornada e o encontros com bispos, ele fez uma espécie de atualização daquele texto.

Ele enfatizou a necessidade de a Igreja ir ao encontro do povo. Chegou a dizer que a Igreja deveria tratar os fiéis como adultos. O sr. concorda que ele deu uma chacoalhada na Igreja? Como o sr. explica tantas mudanças?

Eu vejo aí a ação do Espírito Santo. Cada Papa traz consigo uma realidade e uma riqueza muito grandes. O Papa Francisco segue a doutrina da Igreja, mas traz isso para os tempos atuais, sua história de vida. Ele foi pastor de uma diocese grande, Buenos Aires, sabe muito bem das dificuldades do povo. Ao chegar à Sede de Pedro, tem colocado isso de forma bem clara. A Igreja é chamada a ser missionária, ele tem enfatizado isso. O Papa fala com palavras simples e comparações, passa a ser mais entendido pela imprensa e pelo povo. Por exemplo, quando diz que Igreja é mãe, e mãe não fala com filhos por carta, os coloca no colo.

Pesquisas recentes mostram uma grande defasagem entre o pensamento de católicos e da Igreja em relação a temas como vida sexual, celibato de padres, divórcio e casamento entre homossexuais. Há espaço para mudanças nesses pontos?

O Papa Francisco pratica aquilo que a Igreja sempre ensinou, tratar do primeiro anúncio. Como se supunha que a sociedade estava evangelizada, já se partia para as consequências da evangelização. Ele trata de fazer o primeiro anúncio, um anúncio alegre. Anuncia a boa notícia para as pessoas que estão machucadas, caídas na beira da estrada. A Igreja tem um anúncio importante para fazer, de alegria, de salvação. Não pode ficar discutindo questões tão problemática quando tem um anúncio muito maior para ser feito. Depois, os temas serão discutidos no seu devido tempo. O Papa colocou a evangelização em primeiro lugar, depois, vai ver caso a caso.

Deixa de dar a bronca primeiro, certo?

Sim, primeiro ele anuncia a beleza da vida cristã.

Mas há possibilidade de mudanças? Até agora, o Papa revelou boa vontade em relação a esses temas, mas não uma mudança de percepção da Igreja...

Esses temas foram bem discutidos pela imprensa, com alguns bispos dando opiniões. A gente não pode adiantar sem que antes se consiga discutir o assunto, chegar a algumas conclusões. Estou chegando agora ao Colégio Cardinalício, não sei o que está sendo conversado, mas creio que a Igreja tem boa vontade de ir ao encontro, de trabalhar numa equação que não pode faltar, entre sua fidelidade a Cristo e ao Evangelho, e poder anunciar a boa notícia às pessoas e levá-las à salvação. Junto com isso, tem um monte de pressões, de esquerda, de direita, de centro, de cima, de baixo, ao redor da Igreja. Os passos têm que ser dados com tranquilidade e firmeza.

De fora, temos a impressão de que o sr. identifica mais com Francisco do que com Bento XVI. Isso é verdade?

Não me cabe dizer com quem pareço, cada Papa tem suas características. Admiro muito o pensamento de Bento XVI, assim como a espontaneidade e a proximidade de Francisco.

O sr. se surpreendeu com a desenvoltura do Papa no no Rio?

Ele vinha agindo assim em Roma. Fiquei surpreso com sua atividade, é incansável. Reunia-se com assessores pela manhã, decidia o que iria falar, tratava de assuntos internacionais. Depois, ia para os compromissos. Almoçava e encontrava-se com outras pessoas. Só descansava na hora de dormir.

'Penso na minha responsabilidade. Pedi a Deus para exercer bem esta nova função'Ernesto Carriço / Agência O Dia

E o que ele achou da Jornada da Juventude?

Gostou muito. Do povo, da alegria das pessoas. Fazia muitas perguntas sobre o Rio, sobre regiões da cidade, sobre as praias lotadas.

Por falar nisso. O dinheiro doado pelo Papa para ajudar a cobrir as despesas da Jornada (R$ 11,7 milhões) já chegou? Como estão as contas?

O dinheiro foi depositado, mas ainda não deu para fecharmos a conta. A parte dos fornecedores está quase concluída, a questão dos seguros vai vencer em julho. Nosso orçamento estava bem dimensionado, mas tivemos alguns problemas. Em primeiro lugar, a mudança do lugar da última missa, que seria na Base Aérea de Santa Cruz. Lá, não teríamos gastos com terraplenagem, asfalto. Foi transferida para Guaratiba e, na última hora, passou para Copacabana, o que gerou mais despesas. Houve um superdimensionamento no número de inscrições. Achamos que, como em Madri, teríamos 500 mil inscrições, nos preparamos para isso, encomendamos refeições para esse número de pessoas. Mas só tivemos 300 mil inscritos.

Mas valeu a pena?

Claro que sim, sempre vale a pena ajudar as pessoas. Eu faria tudo de novo.

O Papa não tem fugido de temas delicados para a Igreja, como pedofilia e escândalos no Banco do Vaticano. A impressão é a de que ele mandou abrir as janelas...

Uma de suas características é não recusar a discutir qualquer assunto e, ao mesmo tempo, tomar as decisões necessárias para resolver o que tem que ser revolvido. Ele é muito sincero no que fala. E, agora, começa a pautar as notícias de acordo com o que é melhor, não se deixa pautar tanto pelas notícias negativas. Havia muitas questões que pautavam a Igreja, coisas negativas. Ele dá um olhar no que a Igreja tem de beleza, de importância, de preocupação com a sociedade. No caso da Síria, por exemplo, ele estava preocupado com a possibilidade de os Estados Unidos jogarem mais bombas naquele povo machucado. Ele então pede que todos rezem e façam jejum contra a guerra, e o bombardeio não acontece. Ele foi a Lampedusa (cidade que recebe muitos imigrantes ilegais africanos) para ver os náufragos.

O atual pontificado seria como uma perestroika (movimento de democratização ocorrido na então União Soviética)?

É difícil dizer isso quando se está no meio da história. A Igreja sempre passa por renovações, o Concílio Vaticano 2º foi um desses momentos. Mas este é, sem dúvida, um momento especial para a Igreja, temos um Papa que toma iniciativas, que sai perguntando as coisas. Estávamos acostumados a falar para papas, não a um Papa que telefona, que procura saber de questões práticas. Estamos vivendo um momento muito interessante.

O sr. está ansioso?

Penso na minha responsabilidade, revejo minha trajetória. Pedi a Deus para exercer bem esta nova função, este serviço, ao lado do Papa.


Cerimônia será amanhã, às 7h, na Basílica de São Pedro

Presidido pelo Papa Francisco, o consistório, cerimônia que marcará a criação dos novos cardeais, será realizado amanhã, às 7h (hora de Brasília), na Basílica de São Pedro. Os 19 novos cardeais receberão o anel e o barrete vermelho — espécie de chapéu — cardinalício.

Domingo, às 6h, o Papa e os novos cardeais participarão de missa na Basílica de São Pedro. Na segunda-feira, Dom Orani celebrará missa na Basílica de São Sebastião, onde estão os restos mortais do padroeiro do Rio. Logo depois, embarcará para o Brasil. Dom Orani chegará ao Rio às 7h de terça e, às 9h, visitará a Capela Cristo Redentor, em Bonsucesso. Às 17h45, reza missa na Catedral Metropolitana.

Ao assumir o posto de cardeal, Dom Orani integrará um grupo de apenas 120 pessoas, o Colégio Cardinalício. Será um dos chamados príncipes da Igreja Católica. O Brasil passa agora a ter oito cardeais. Destes, apenas ele e os outros quatro que têm menos de 80 anos podem votar na escolha do Papa.

Como cardeal, Dom Orani passará a ser titular de uma paróquia romana e ajudará na administração da Igreja. Foi escolhido para integrar o Pontífice Conselho para os Leigos.

Sacerdote enfrentou crise na Arquidiocese do Rio

Ordenado padre em 1974, Dom Orani foi nomeado bispo de São José do Rio Preto em 1997 pelo Papa João Paulo II. Em 2004, mudou-se para Belém, após ser nomeado arcebispo metropolitano. Por oito anos, entre 2003 e 2011, foi presidente da Comissão Episcopal para a Cultura, Educação e Comunicação da CNBB, Conferência Nacional dos Bispos do Brasil.

Em 2009, recebeu o seu maior desafio: assumir a Arquidiocese do Rio, que passara por uma crise. Ele veio substituir Dom Eusébio Scheid, que, em 2001, ficara responsável pelo posto exercido, ao longo de 30 anos, por Dom Eugenio Sales. Os problemas na Arquidiocese começaram a partir de uma série de demissões, na gestão de Dom Eusébio, de dezenas de pessoas ligadas ao seu antecessor. As mudanças foram feitas pelo padre Edvino Steckel, então encarregado das finanças da Igreja do Rio.

As demissões eram apenas parte do problema. Assim que Dom Orani assumiu o cargo, o ‘Informe do DIA’ revelou que, com dinheiro da Igreja, padre Edvino comprara um apartamento de luxo para servir de residência a Dom Eusébio, já aposentado. Também mostrou que Edvino comprara carros e móveis de luxo para a Arquidiocese e que, ao lado do antigo arcebispo, administrava um cartão de crédito oferecido em nome da Igreja. O padre acabou demitido por Dom Orani.

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