Jovem morto na Vila Kennedy um dia antes de entrar no Exército

Inocente de 18 anos é mais uma vítima da guerra entre traficantes rivais na comunidade

Por O Dia

Jovem morreu após confronto na Vila KennedyReprodução Internet

Rio - Ele iria retirar nesta segunda-feira a farda no quartel. Um dia antes de ingressar no Exército, porém, morreu em meio a uma guerra travada entre facções rivais pelo controle do tráfico na Vila Kennedy, em Bangu, que se arrasta há duas semanas. Alexander da Silva Ramos, de 18 anos, foi atingido por um tiro na cabeça enquanto voltava da casa da namorada de moto, ao passar pela localidade conhecida como Caminho da Vovó, na madrugada de domingo. O amigo dele, que estava na garupa da moto, se feriu no braço.

A morte de Alex revoltou moradores, que atearam fogo em um ônibus e fecharam pistas da Avenida Brasil, ontem de manhã. Cerca de 150 pessoas participaram da manifestação. Policiais do Batalhão de Choque foram ao local conter o ato. Bombas de gás lacrimogêneo foram atiradas em direção a uma feira na praça da Vila Kennedy.

Há duas versões sobre o tiroteio que matou Alexander. Policiais militares contaram, em depoimento à Divisão de Homicídios (DH), que ouviram disparos. Em seguida, encontraram dois ocupantes de uma moto caídos no chão.

A história contada pelos moradores foi outra. Eles relatam que traficantes dentro de um carro atiraram numa guarnição de PMs, que revidou. Pouco depois, Alexander e o amigo passaram de moto pelo local. Com medo, se recusaram a parar ao serem abordados. Os policiais, então, teriam atirado. Ferido no braço, o amigo de Alexander teria caído.

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Ao parar para socorrê-lo, o rapaz foi baleado na cabeça pelos PMs, segundo a versão contada pelos moradores da comunidade.

“Eles não pararam, porque ficaram com medo. Aí, a polícia atirou. O Alex era trabalhador. Foi uma covardia”, disse um morador, que não se identificou.

Policiais do Choque estiveram na Vila Kennedy para coibir ato de moradores, que protestaram na Av. Brasil por causa da morte de AlexanderFotos%3A Thiago Lara / Agência O Dia

Vítima trabalhava em pequeno mercado

Alexander trabalhava num mercadinho na Av. Marrocos, segundo vizinhos e familiares. Além de atender no balcão, entregava encomendas na casa dos clientes, de bicicleta. Uma rotina que ele deixaria para trás nesta semana, por causa do Exército. Alexander tinha ido à casa da namorada com um amigo, que estava na garupa da moto quando eles foram baleados. Ele tinha um irmão mais novo e morava com os pais.

Entre os amigos, era conhecido como ‘Tica Tica Piloto’, por causa da baixa estatura e da habilidade para dirigir motos. “Ele que me ensinou a andar de moto. Era um moleque brincalhão. Estava todo alegre porque ia entrar no Exército. Vai fazer muita falta”, desabafou um jovem.

Ônibus foi incendiado durante o protesto ontem de manhã, e bombas, atiradas em direção a uma feiraFotos%3A Thiago Lara / Agência O Dia

A guerra na Vila Kennedy dura duas semanas. Segundo a polícia, os confrontos começaram depois de uma briga interna no Comando Vermelho entre o traficante Fábio Augusto Silva de Souza, o Fabinho Noronha, e a mulher do chefão local, o criminoso Aldair Marlon Duarte, o Aldair da Mangueira, preso há 12 anos.

Um dos homens chefiados por Noronha, que fazia segurança na área, atirou no Ecosport com vidros escuros conduzido pela ‘primeira-dama’ da favela em alta velocidade. O disparo de advertência teria sido dado porque ela não seguiu as normas do tráfico, que obriga os moradores a entrarem com vidros abertos.

Aldair mandou carta do presídio, pedindo que Noronha fosse morto. Depois de interceptar a correspondência, ele deixou a favela com 30 comparsas, 15 fuzis, drogas e R$ 1 milhão em dinheiro.

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