Comlurb começa a demitir garis que não voltaram ao trabalho

Com ruas cheias de lixo e mau cheiro, categoria segue em greve

Por O Dia

Rio - Após três dias da greve que paralisou a coleta na cidade no Carnaval, deixando as ruas inundadas de lixo, a Comlurb endureceu o tratamento com os grevistas. Conforme antecipara, iniciou ontem o processo de demissão de cerca de 300 garis que estariam forçando colegas a aderir à paralisação iniciada no sábado. Porém, parte deles decidiu manter os braços cruzados, em assembleia pela manhã.

Garis em greve se reuniram na Central do Brasil nesta terça-feiraAlessandro Costa / Agência O Dia

A normalização das atividades, segundo o grupo dissidente, só será feita caso a Comlurb aceite proposta de aumento do piso salarial de R$ 874 para, no mínimo, R$ 1.200 (fora o adicional de insalubridade, de 40%) e que sejam oferecidos benefícios como vale-alimentação e licença-prêmio e aumento do valor do tíquete-refeição.

>>> GALERIA: Lixo acumulado se espalha pela cidade com a greve dos garis

Em reunião da categoria, na Central do Brasil, mais de 200 garis lançaram gritos de ordem como “Eeeeeê, neste Carnaval, o prefeito vai varrer (pausa). Sozinho!”. Alguns deles seguiram para a sede da prefeitura, na Cidade Nova, para tentar nova reunião com representantes da Comlurb. Eles afirmam não estar de acordo com a negociação com o sindicato, que obteve na segunda-feira, aumento de 9% no piso, chegando a R$ 874,79, mais 40% de adicional de insalubridade, e benefícios como plano odontológico, aumento do tíquete-refeição de R$ 12 para R$ 16 e gratificação de 14º e 15º salário por resultados. As medidas entram em vigor a partir de abril.

A Comlurb está enviando cartas aos garis para que compareçam a sua sede na Tijuca na quinta-feira, para formalizar a rescisão, em função de faltas injustificadas dias 3 e 4, de acordo com decisão do Tribunal Regional do Trabalho (TRT), que declarou a greve ilegal no último sábado, e a cláusula 65 do acordo firmado com o sindicato. A empresa informou que as operações já foram retomadas em áreas como Centro (especialmente Avenida Rio Branco, Aterro e Sambódromo) e na Zona Sul.

No entanto, até o início da tarde, o cenário era desolador para moradores e visitantes, com papeleiras cheias, lixo no chão, sacos à espera de coleta e muito mau cheiro no ar. Em ronda de mais de uma hora pelas zonas Norte e Sul, equipe do DIA não avistou nenhum varredor, a não ser em um trabalho de coleta na Avenida Atlântica. Profissionais, que não estavam uniformizados, retiravam apenas as sacolas maiores. Para garantir a segurança, a Guarda Municipal e a PM foram acionadas.

Depois dos blocos, mais sujeira

No dia de ontem, último dia oficial do Carnaval, com 87 blocos nas ruas, a situação se agravou. Na Zona Sul, onde se concentra boa parte deles, porteiros como Luiz Claudio Gomes não viram a presença de garis. “Desde sábado, nem sinal deles. Eu estou varrendo e, agora, estou preocupado para saber se vão recolher o lixo”, contou o funcionário de um prédio na Bartolomeu Mitre, no Leblon.

No Aterro do Flamengo, horas antes do desfile do bloco Orquestra Voadora, o espaço já estava repleto de plástico e papel, ainda dos últimos blocos como Sargento Pimenta, que se apresentou na segunda. Na Lapa e arredores do Sambódromo, a quantidade de sacolas de lixo chegava a centenas.

TRT valida demissão em greve ilegal

Advogado trabalhista há 43 anos, José Ribamar Garcia explicou que a demissão em massa pode ser feita pela Comlurb depois que o Tribunal Regional do Trabalho (TRT) declara a greve ilegal, o que ocorreu no sábado. “O advogado da empresa precisa procurar o setor de dissídio coletivo do TRT, que marcará uma reunião de conciliação. Se não houver acordo e a autoridade judiciária determinar a ilegalidade da greve, a empresa pode demitir por justa causa. Do contrário, qualquer medida tomada pela empresa é anulada e os funcionários demitidos, são reintegrados pela Justiça”, disse.

Há dez anos na Comlurb, Anderson Santos, 33, diz que não voltará ao trabalho. “O presidente (do sindicato) nem gari é. Tenho duas filhas e, se não fosse minha mulher, elas estariam passando fome. Trabalho quase todo domingo e não há gratificação. Está cada vez pior. Não vou voltar, só se pagarem mais. Não adianta me assustar com esse papo de demissão”, disse.

Colaborou Roberta Trindade

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