Força-tarefa para limpar as ruas da cidade

Com fim da greve, três mil garis recolhem 18,2 mil toneladas de lixo. Até amanhã, Rio estará limpo

Por O Dia

Rio - Uma força-tarefa de três mil garis trabalhou na noite de sábado e no domingo na limpeza da cidade, após o encerramento da greve que durou oito dias. Foram removidas 18,2 mil toneladas de resíduos, segundo a Comlurb. A previsão é que a limpeza seja normalizada até amanhã.
Ontem foi o primeiro dia em que o planejamento traçado pela Comlurb para o Carnaval foi colocado em prática. No Sambódromo, 120 garis retiraram 15,5 toneladas de lixo e, no Monobloco, no Centro, foram 11,3 toneladas. Ao todo, 175 equipamentos adicionais, como caminhões, basculantes, pás mecânicas e varredeiras, foram usados nos serviços de coleta, varrição e remoção dos resíduos. 

No Jardim Guanabara%2C dois funcionários faziam a coleta de lixo e reclamavam da falta de mais pessoal e equipamentosFábio Gonçalves / Agência ODIA


Ao contrário do número divulgado pela Comlurb, o presidente do Sindicato de Empregados de Empresas de Asseio e Conservação, Luciano David Araújo, disse que só ontem foram 11 mil garis nas ruas. Desses, três mil eram profissionais de folga que resolveram trabalhar. Hoje, ele calcula que os 16 mil garis estarão nas ruas e nas escolas da rede municipal, incluindo os Agentes de Preparo de Alimentos. Ontem, O DIA noticiou que a prefeitura contratou em esquema de urgência pessoas para a limpeza de colégios e do Sambódromo. 

“Tudo voltou ao normal. Desse último acordo, as reivindicações foram atendidas, mas ainda queremos o triênio que perdemos e uma comissão para garis que atuam em eventos especiais. A luta continua”, disse.

Após longa negociação, os trabalhadores conseguiram reajuste de 37% no salário, que passou para R$ 1,1 mil mais 40% de adicional de insalubridade, e de quase 67% no vale-refeição, que passou de R$ 12 para R$ 20.“Depois do aumento salarial, temos até mais ânimo para trabalhar. Agora, é colocar a mão na massa”, disse a gari Regina Célia Procópio, 47 anos.

Pela manhã, dois funcionários faziam a limpeza na Praia da Bica, no Jardim Guanabara, Ilha do Governador, mas reclamavam do número de pessoas no serviço. “Precisamos de reforço e de ferramentas, pois, durante a greve, muito material foi quebrado”, disse um profissional, que não quis se identificar.

Apesar da grande mobilização ontem, moradores de diversos pontos, como a Praça Edmundo Rego, no Grajaú, reclamaram da sujeira. “A coleta não é feita desde o dia 28. O dono do bar pagou para uma empresa privada fazer o serviço, mas eles só conseguiram levar a metade do lixo”, disse Damião Saraiva, atendente de bar. 

‘Foi uma tatuagem na alma’, diz líder da greve, que foi candidato a vereador pelo PR e é ex-membro do PSOL

“Não me considero um herói. Sou apenas um gari que estava lutando pelos colegas. Essa luta é nossa.” Foi com essas palavras que o gari Célio Viana, 48 anos, um dos membros da comissão criada para a greve, definiu a conquista da categoria na tarde de sábado. Para ele, que não tem computador e soube da repercussão do feito em uma lan house, a conquista do aumento foi “uma tatuagem na alma”.

Apesar de ser filiado ao PR, pelo qual se candidatou vereador em 2012, e já ter sido membro do PSOL, ‘Célio Gari’, como é conhecido, faz questão de destacar que o movimento não teve influência de nenhum partido político, que foi só uma reivindicação salarial. Ele também não pretende assumir uma vaga no sindicato que os representa. Quanto à política, diz “não saber o dia de amanhã.”

O gari se tornou um dos líderes do movimento “de forma natural”. Segundo ele, tudo começou com um ‘boca-a-boca’, mas ninguém queria assumir o comando. Depois, em uma reunião, as pessoas simplesmente o apontaram, junto com os outros colegas. Célio acredita que foi escolhido porque ele sempre comentou sobre sua insatisfação com o valor do piso.

Emocionado, Célio disse que os garis só conseguiram a vitória porque houve união. Segundo ele, os trabalhadores conseguiram compreender a mensagem, sendo possível então enfrentar a pressão e até o drama vivido pelas famílias. Questionado sobre os futuros planos da categoria, ele explicou que deseja que “os companheiros continuem com o diálogo para garantir outras reivindicações” dos que ganham o piso. 

Praça em Rio das Pedras ainda sofre 

Em Rio das Pedras, Jacarepaguá, apesar da normalização do trabalho dos garis, a 'Praça do Lixão', como é conhecida a pracinha da Avenida Luiz Carlos da Conceição, estava na mesma situação. Para piorar, um grande número de moscas infestava o local, sem falar no mau cheiro.

Já a Rua Pinheiro, que dá acesso a uma das entradas da favela, e que estava tomada por lixo, recebeu uma equipe da Comlurb, duas retroescavadeiras e um caminhão de coleta. O lixo foi removido, para o alívio de comerciantes. “Isso estava prejudicando muito o nosso trabalho, diminuindo as vendas. Tinha de tudo, de restos de comida a móveis”, disse o camelô Raimundo Oliveira, de 50 anos.

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