Investigação com alta tecnologia

Programa empregado pela polícia do Rio detecta, pela primeira vez no país, corpo de desaparecido

Por O Dia

Rio - Durante quase dois anos, as idas ao Setor de Descoberta de Paradeiros da Divisão de Homicídios (DH) do Rio fizeram parte da rotina de Onofre Locio Xavier. Ele passou todo esse tempo em busca do filho Jean Pierre Belmont Xavier, desaparecido em 2012 em Antares, Santa Cruz, Zona Oeste. Há dois meses, a incessante luta de Onofre para encontrar o filho terminou, mas com uma notícia que nenhum pai gostaria de receber: Jean Pierre está morto. 

Perícia identificou corpo a partir da combinação genética entre Jean Pierre%2C que morreu carbonizado em 2012%2C e o pai Onofre%2C que doou o materialUanderson Fernandes / Agência O Dia


O corpo foi carbonizado e a identificação só foi possível com o Combined DNA Index System (Codis), um software adquirido pela Polícia Civil, que também é usado pelo FBI, a polícia americana.

É a primeira vez no Brasil que o programa identifica um desaparecido pela compatibilidade genética. Cerca de 20 estados usam o Codis, que faz o cruzamento de dados dos vários perfis genéticos em minutos. O material para análise foi doado por Onofre e analisado por peritos do Instituto de Pesquisas e Perícias Genética Forense (IPPGF), o laboratório de DNA que tem um banco de dados com cerca de 250 amostras armazenadas. O resultado, feito em menos de uma semana, saiu em dezembro.

“O Codis facilitou nosso trabalho. Sem ele, essa identificação seria praticamente impossível porque não temos condições de fazer manualmente o cruzamento de dados dessa quantidade de amostras”, disse a administradora do Codis, a bióloga e perita Tatiana Hessab.

Diariamente são inseridas e analisadas informações genéticas no banco de dados de DNA do IPPGF. Nele, consta tanto material de pessoas que vão ao instituto doar, quanto dos cadáveres encontrados sem identificação e também de criminosos condenados.

“Mesmo o material dando negativo, vai para o banco. Nada é descartado porque será usado em outro caso. É muito frustrante quando uma análise dá negativa. As buscas seguem porque pensamos nas famílias dos outros que ainda vão continuar procurando por seus parentes”, explicou a outra administradora do Codis, Rosangela de Carvalho, especialista em Genética Forense. Ela festejou o resultado do caso de Jean Pierre: “Ficamos muito felizes, embora trate de um morto. É contraditório, mas é o nosso trabalho.” 

O resultado do IPPGF do Rio foi comemorado também em outros estados. “Fizemos uma confraternização por e-mail. Esperamos, a partir de agora, concluir outros casos”, contou o diretor do IPPGF, o perito biomédico Rodrigo Grazinolli. 

Sistema tenta encontrar corpo de Amarildo

Jean Pierre morreu em Antares, área de tráfico, mas o corpo foi encontrado em Guaratiba, região de milícia, o que dificultaria ainda mais a identificação. “Sem o Codis, seria muito difícil encontrá-lo porque a análise é feita com vítimas do mesmo perfil e sabíamos apenas que ele havia morrido em Antares. A prisão do assassino foi pedida”, contou a delegada do Setor de Descoberta de Paradeiros da DH, Ellen Souto.

As amostras de cadáveres analisadas no caso do pedreiro Amarildo de Souza vão para o banco de DNA, assim como o material doado por seus filhos. Amarildo foi morto por PMs em julho e seu corpo ainda não foi achado.

O Codis também será usado para os casos de desaparecidos nas chuvas da Região Serrana em 2011, e de vítimas do desabamento do Edifício Liberdade, na Avenida Treze de Maio, no Centro, em 2012.

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