Mulher vítima de violência recebe apoio

Centro especializado registra 16% novos casos em 2013. Muitas ficam abrigadas

Por O Dia

Rio - Há dois meses, Y., de 22 anos, viu sua vida mudar radicalmente. Vítima de violência doméstica, que lhe deixou uma cicatriz no rosto, fugiu de casa quando o marido, traficante de drogas, saiu para comprar cigarro, buscando auxílio em um abrigo. De lá, foi encaminhada à Casa Viva Mulher Cora Coralina, mantida pela Prefeitura do Rio para receber mulheres que sofrem ameaças de morte. Desde então, luta para reconstruir sua história, de roteiro próprio, mas semelhante às de R., 24, C., 34, e M., 48. 

Abrigadas na Casa Viva Mulher%2C R. e Y. sofreram ameaças de morte. Hoje%2C compartilham suas histórias e se fortalecem para reconstrui-lasCarlos Moraes / Agência O Dia

Com condições sociais diferentes, elas são vítimas de algum dos cinco tipos de agressão previstos na Lei Maria da Penha —física, psicológica, sexual, moral e patrimonial — e confirmam que a violência doméstica atinge todas as classes. A maioria que chega ao Centro Especializado de Atendimento à Mulher Chiquinha Gonzaga (Ceam) possui Ensino Médio completo, trabalha e tem renda própria. O espaço funciona no Centro Calouste Gulbenkian, na Praça 11. Em 2013, foram 1.261 atendimentos, 16% a mais que em 2012. Em casos de ameaças de morte, elas são encaminhadas à Casa Viva, cujo endereço não é revelado, para preservar sua segurança.

“Ele já me agredia e colocou a arma na minha boca. Quase morri. Foi quando decidi fugir. Hoje, sinto o gosto da liberdade. Aprendi que mulher não depende de homem”, diz Y, que hoje pretende resgatar o contato com a filha e a mãe e denunciar o agressor.

R. também vive na Casa Viva com os três filhos e recebeu benefício da prefeitura. “Vamos desconstruindo a violência. A gente sai dela, mas ela não sai da gente”, pontua. R. resolveu mudar de vida depois da última ameaça do ex-marido, usuário de drogas, e agora quer terminar o Ensino Médio.

Sem marcas da violência no corpo, M. passou por humilhação e tortura psicológica por 12 anos. O agressor chegou a levar a amante para morar com eles. Mais fortalecida, há três meses ela frequenta o Ceam: “Larguei ele (sic), resgatei o contato com a família e voltei a trabalhar”, diz ela, que resolveu processar o ex-marido.

Ela é um dos casos de mulheres com dificuldades de se identificar como vítimas por não terem sofrido agressão física, como explica a psicóloga do Ceam, Flávia Yamada. “Elas demoram a se ver em situação de violência por não terem as marcas dela. Mas a violência psicológica está presente em todas as outras”.

Vítima em dois relacionamentos, foi no segundo que C. buscou ajuda: “Ele usava meu filho para me manipular por razões financeiras. Hoje, mudei de vida e sei reconhecer os sinais”, diz, confiante. 

MUITO ALÉM DAS MARCAS 

Vítimas têm mais dificuldade em evitar outros tipos de agressão

Identificar e romper o ciclo de violência de que são vítimas não é fácil para muitas das mulheres que buscam a proteção do poder público. Enquanto a agressão física é logo identificada, a psicológica, por meio de constrangimento; a sexual, obrigando a parceira a ter relação; a patrimonial, que destrói seus bens; e a moral, por ofensas, ainda são, muitas vezes, minimizadas pelas próprias mulheres.

Além do medo, a falta de informação é outro fator para que as vítimas continuem presas ao cenário de violência. Psicóloga da Casa Viva, Denise Lage explica que, independentemente de como a violência se expressa, em sua maioria, ela é fruto de uma cultura que impõe a submissão da mulher.

“Elas acabam se culpando e buscando justificativa pelas agressões deles. É um processo que tem início, meio e fim. Cada uma tem seu tempo para desconstruir essa ideia e encontrar o apoderamento de si mesma”, revela. 

EM ABRIL 

Casa da Mulher Carioca será aberta

Criada em 2013, a Secretaria Especial de Políticas para as Mulheres do Rio (SPM-Rio)</CW> é responsável pela Casa Viva (com capacidade para 40 pessoas, entre mães e crianças) e o Ceam, que funcionam desde 2001, com outras denominações. Muitas vítimas são encaminhadas aos centros pelo Juizado de Violência Doméstica. O órgão criou ainda o ‘Ligue 180’, para orientar as vítimas.

Para a secretária Ana Rocha, é preciso reforçar a política de proteção: “A violência é cíclica, precisamos combatê-la”, diz, ao explicar o aumento no atendimento do Ceam. “A Lei Maria da Penha trouxe novas medidas protetivas e isso facilitou a procura”, destaca.

A secretaria vai inaugurar este ano três Casas da Mulher Carioca, para o público feminino. A primeira será em abril, em Madureira. Outros quatro estão previstos.

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