Por bianca.lobianco

Rio - Após a morte do subcomandante da UPP Vila Cruzeiro Leidson Acácio Alves Silva, de 27 anos, morto com um tiro na testa no Parque Proletário, no Complexo da Penha, por suspeitos durante ataque simultâneo a PMs na noite desta quinta-feira, o comandante-geral da PM do Rio, coronel José Luís Castro Menezes disse que a corporção está levando a companhia de instrução do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) para dentro do Complexo do Alemão e em áreas que tenham ligações diretas ou indiretas com o Alemão e a Vila Cruzeiro. A informação foi dada nesta sexta-feira.

"Alem do treinamento que vamos dar aos PMs com a companhia de instrução do Bope, as ações serão permanentes, 24h por dia, enquanto for necessário", afirmou o coronel José Luís Castro.

Parentes e colegas do PM estavam inconsoláveisOsvaldo Praddo / Agência O Dia

"Nos reunimos hoje e decidimos, a partir de amanhã (sábado), deslocar uma companhia de instrução do Batalhão de Operações Especiais para o Alemão, reforçar o efetivo com mais 100 policiais militares que vão passar diariamente por estes treinamentos com o Bope, aperfeiçoando seu treinamento."

"É importante que os moradores confiem no trabalho da polícia com denúncias de armas, drogas e esconderijos", pediu ele em entrevista ao RJTV.

José Luís Castro Menezes também pediu ao Congresso Nacional que cumpra seu papel, aumentando a pena das prisões dos criminosos. 

'A cidade vive uma guerra, mas estamos trabalhando contra isso', diz Beltrame

O secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, afirmou, nesta sexta-feira, durante a formatura de 470 PMs em Sulacap, na Zona Oeste do Rio, que 'a cidade vive uma guerra'. "Nós estamos vivendo em uma guerra, mas estamos trabalhando para combater isso. Temos esses problemas porque assim deixaram. Não desistam de lutar. É mais fácil ser pessimista que otimista. Ser pessimista é se jogar ao nada. Ser otimista nos desafia e nos tira da inércia", disse Beltrame, se dirigindo aos formandos.

O secretário lamentou a morte do tenente Leidson Acácio Alves Silva. "Não é um dia feliz. Mas cada um de vocês tem uma história que foi construída para que vocês chegassem até aqui. Sem segurança não há emprego e desenvolvimento. O que vocês fazem é garantir na rua o direito democrático", pontuou.

Viúva de subcomandante morto na Penha posta mensagem no Facebook

Jaqueline e Leidson abraçados. Viúva postou texto emocionado no FacebookReprodução Internet

A viúva do subcomandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Vila Cruzeiro, tenente Leidson Acácio Alves Silva, de 27 anos, postou no Facebook uma mensagem lembrando o início do namoro do casal. “Me lembro bem a primeira vez que eu olhei nos teus olhos. Eu encontrei ternura e amor, como eu nunca vi igual. Meu amor é muito mais do que eu podia imaginar ... Se uma lágrima cair do meu olhar, não leve a mal. É o meu coração querendo te encontrar...”, revela a postagem escrita por Jaqueline Oliveira. Uma foto antiga dos dois abraçados ilustra o texto.

Leidson será enterrado às 15h30m desta sexta-feira, no Cemitério Jardim da Saudade, em Sulacap, na Zona Oeste do Rio. O velório será na capela A.

Ataque simultâneo no Parque Proletário

O oficial da PM foi ferido por um tiro transfixante na testa e chegou a ser levado para o Hospital Estadual Getúlio Vargas (HGV), no mesmo bairro, mas não resistiu. Ele é o 18º PM morto este ano no Rio, o 11º desde a implantação das UPPs em 2008 e o quarto lotado nas unidades na primeira quinzena de março. Um contêiner da UPP também foi alvo de disparos.

Segundo um PM que trabalha no patrulhamento da Vila Cruzeiro e do Parque Proletário - que juntamente com os morros da Fé e Sereno e das comunidades da Grota e da Chatuba formam o Complexo da Penha - o ataque ocorreu ao mesmo tempo a quatro grupos de PMs que patrulhavam a pé as duas comunidades, por volta das 22h30. O tenente Leidson comandava uma equipe de nove militares que foram alvo de um grupo de pelo menos 20 marginais fortemente armados, na Rua 10, divisa entre as duas comunidades. Houve troca de tiros e os PMs tiveram que se refugiar em uma casa, enquanto solicitavam socorro para o oficial ferido.

Sob intenso fogo cruzado, uma ambulância do Samu conseguiu chegar meia hora depois e resgatar o tenente. No HGV, ele ainda foi submetido a uma cirurgia, mas acabou não resistindo. PMs lotados nas UPPs da Vila Cruzeiro e do Parque Proletário, familiares e amigos de Leidson se solidarizaram na porta do hospital ao saber da morte do oficial.

Após a ação dos criminosos, um menor foi apreendido com uma moto próximo a uma pedreira na parte alta do Parque Proletário. O local é uma tradicional rota de fuga de bandidos após atacar PMs, segundo policiais da UPP. Ele foi ouvido na 22ª DP (Penha) e liberado. Policiais do Batalhão de Operações Policiais Especiais (Bope) e do 16º BPM (Olaria) reforçaram o policiamento durante a madrugada na Vila Cruzeiro e no Parque Proletário em busca dos marginais que realizaram os ataques. A Divisão de Homicídios (DH) assumiu as investigações e vai realizar uma perícia no local do confronto na manhã desta sexta-feira.

De acordo com o delegado Flávio Rodrigues, da 22ª DP (Penha), inicialmente o confronto entre traficantes e a equipe do tenente Leidson teria sido ocasional e não premeditado. Ele disse que a delegacia vai auxiliar a DH nas investigações sobre a morte do oficial. O delegado informou ainda que já existe uma investigação da 22ª DP, com interceptação eletrônica, sobre outros ataques ocorridos contra PMs no Complexo da Penha.

PMs fizeram varredura no Parque Proletário após morte de tenenteSeverino Silva / Agência O Dia

PMs são alvos simultâneos de 'bondes'

Ataques a PMs das UPPs da Vila Cruzeiro, do Parque Proletário e da Chatuba se tornaram rotina nos últimos meses. A informação é de um policial militar lotado em uma das unidades. Segundo ele, os criminosos que se reuniam em grupos de cinco para atacar policiais em patrulhamento a pé, agora fazem as ações em número maior e simultaneamente. O objetivo é evitar que as patrulhas partam em apoio umas às outras durante os confrontos.

Segundo o policial, os ataques ocorrem a cada dois ou três dias. Os bandidos seguem pela mata que divide os complexos do Alemão e da Penha, e acessam uma antiga pedreira. No local ermo, eles entram no Parque Proletário pela localidade conhecida como Vacaria. Fortemente armados de pistolas, fuzis e até granadas, os criminosos se dividem em grupos de no mínimo 10 bandidos e seguem para a própria comunidade, a Vila Cruzeiro e a Chatuba, onde ocorrem os ataques. A fuga é feita pelo mesmo caminho.

"A gente não aguenta mais ver colega baleado", desabafou o PM. Segundo ele, os policiais que atuam nas UPPs do Complexo da Penha estão insatisfeitos com a escala de serviço de 12 horas de trabalho por 36 de folga, que muitas vezes pode ser dobrada para 24 horas. O militar disse ainda que a atuação quase que diária dos PMs na comunidade acaba os deixando expostos a identificação pelos marginais e ataques. Eles também sofreriam hostilidades por parte dos moradores.

Ainda de acordo com o PM da UPP, a quadrilha nunca entra no Complexo da Penha com menos do que 30 marginais. O número de criminosos pode chegar a 60, dependendo da importância de marginais da quadrilha que participam da ação. O policial afirmou que um deles é o traficante Luiz Cláudio Machado, o Marreta, de 39 anos. Foragido do sistema penitenciário, ele é considerado o 'homem de frente' da facção nas ações da quadrilha nas ruas, como ataques a PMs, e nas compras de armas e drogas. O Disque-Denúncia oferece R$ 5 mil por informações que levem a sua captura.

Outro traficante apontado pelos PMs como atuante nos ataques no Complexo da Penha é Bruno Eduardo da Silva Procópio, o Piná, de 33 anos. Ele é apontado pela polícia como o gerente de vários pontos de venda de drogas na região. Segundo o Disque-Denúncia, ele seria primo do traficante Luiz Fernandes Procópio Ferreira, o Escobar, preso por policiais da 22ª DP. Piná seria o segundo homem na hierarquia do tráfico na Penha. A recompensa também é de R$ 5 mil.

Quatro baixas em março

A cada quatro dias, um policial foi morto no Rio de Janeiro em 2014. Antes do tenente Leidson , o alvo mais recente da guerra tinha sido o soldado Titus Lucius Bessa de Farias, de 31 anos. Reconhecido por assaltantes que faziam um arrastão em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, no último domingo. Lotado na UPP do Caju, Titus estava há pouco mais de dois anos na corporação e foi o 17º policial morto este ano no Rio.

O militar era morador de Caxias e foi abordado pelo bando que assaltava vários veículos na Rua Silva Fernandes, no bairro Parque Duque. Titus ainda tentou esconder a pistola que carregava, mas os ladrões a encontraram e atiraram duas vezes na cabeça dele.

Três dias antes, o soldado Rodrigo de Souza Paes Leme, 33, foi morto com dois tiros no peito quando fazia patrulhamento na Favela Nova Brasília, no Complexo do Alemão, onde servia na UPP. No mesmo dia, o soldado Wagner Vieira Cruz, 33, morreu no HGV, onde estava internado desde o dia 28 de fevereiro, quando foi baleado na cabeça em ataque de bandidos a militares da UPP Vila Cruzeiro.

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